Democratas assumem o Congresso e restringem medidas tarifárias
A conquista do controle da Câmara e do Senado pelos democratas nos Estados Unidos redefine o cenário político para as políticas comerciais do governo Trump. Com maior poder de fiscalização e bloqueio, o novo Congresso deve dificultar a imposição de tarifas adicionais sobre produtos importados, uma das estratégias adotadas pela administração Trump para pressionar parceiros comerciais e incentivar investimentos internos.
Esse aumento de tarifas, conhecido como “tarifaço”, elevou os impostos sobre bens estrangeiros, refletindo em alta nos preços internos e gerando insatisfação entre os consumidores americanos, fator que contribuiu para a derrota dos republicanos nas últimas eleições. Analistas indicam que, além das tarifas, a postura firme dos EUA em relação ao Irã também pressionou a inflação doméstica, tornando a política econômica do presidente alvo de críticas.
Implicações para o Brasil e limitações à aplicação de tarifas
No caso do Brasil, o novo equilíbrio no Congresso americano pode restringir a adoção de novas tarifas e acelerar a resposta legislativa a eventuais conflitos comerciais. Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, ressalta que o controle democrata tende a limitar a capacidade do governo Trump de impor tarifas contra o país, embora o presidente ainda possua mecanismos legais para aplicar taxas.
Entre esses instrumentos estão a Seção 232, que autoriza tarifas por motivos de segurança nacional — já aplicada ao aço brasileiro — e a Seção 301, que trata de medidas contra práticas comerciais consideradas desleais, incluindo investigações relacionadas ao Brasil. Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA anulou tarifas baseadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), mas manteve as fundamentadas nas seções 232 e 301, que seguem regras distintas.
Revisão dos investimentos bilionários no Japão e na Coreia do Sul
A mudança no Congresso também pode influenciar acordos comerciais com aliados asiáticos, como Japão e Coreia do Sul. No ano anterior, esses países comprometeram-se com investimentos bilionários nos EUA para evitar tarifas mais pesadas: US$ 550 bilhões no caso do Japão e US$ 350 bilhões para a Coreia do Sul. Especialistas indicam que o controle democrata pode reduzir a pressão para o cumprimento imediato desses compromissos.
Heo Yoon, professor de economia da Universidade Sogang, em Seul, observa que os democratas reconhecem que esses investimentos foram impostos aos aliados, o que abre espaço para reavaliação. A Coreia do Sul enfrenta tensão sobre os investimentos prometidos, e uma fiscalização mais rigorosa do Congresso pode proporcionar mais tempo para análise dos projetos, conforme Ban Kil-joo, professor da Academia Diplomática Nacional da Coreia. Por outro lado, Trump ainda pode usar a ameaça de tarifas para pressionar caso considere o avanço insatisfatório.
Negociações comerciais com a Índia e cautela nas relações
A Índia também pode se beneficiar da nova configuração política para adotar postura mais cautelosa nas negociações com os EUA. Em fevereiro, os países reduziram tarifas sobre produtos indianos de 50% para 18%, após uma rodada frustrada no ano anterior. Apesar do otimismo do ministro do Comércio indiano sobre a proximidade de um novo acordo, o progresso dependerá de condições favoráveis, especialmente em relação a concorrentes.
Tommy Xie, do OCBC Bank, prevê que a vitória democrata aumentará a pressão para evitar novas disputas comerciais, que elevam custos para consumidores americanos. Rajiv Bhatia, ex-diplomata indiano, recomenda prudência, lembrando que a vitória dos democratas não assegura maior flexibilidade de Trump. Para ele, o diálogo intenso com o Congresso será fundamental para proteger interesses em comércio, tarifas e vistos.
China observa, mas enfrenta barreiras no Congresso
A China, rival econômico dos EUA, acompanha atentamente a nova conjuntura. A trégua comercial entre os países expira em janeiro, e o enfraquecimento político de Trump pode levar Pequim a buscar condições mais vantajosas nas negociações futuras, segundo Saul Eslake, economista australiano. No entanto, o controle democrata do Congresso tende a dificultar acordos rápidos e pode impor regras mais rigorosas sobre exportação de tecnologias estratégicas, como inteligência artificial e semicondutores.
Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe da Natixis para Ásia-Pacífico, avalia que os democratas limitarão a capacidade do presidente em conceder facilidades à China e defenderão maior fiscalização sobre empresas e produtos ligados a setores estratégicos. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, afirmou que as eleições americanas são assunto interno dos EUA e que Pequim continuará buscando cooperação, apesar das divergências.
Perspectivas para tarifas e negociações internacionais
Mesmo com o Congresso sob controle democrata, Trump mantém instrumentos legais para aplicar tarifas e pode continuar usando essa estratégia para pressionar parceiros comerciais. A mudança no Legislativo dificulta algumas iniciativas presidenciais, ampliando a fiscalização e criando obstáculos para novas medidas tarifárias.
Para os países que negociam com os EUA, o cenário apresenta duas possibilidades: maior espaço para negociação ou aumento da pressão comercial. Trump deverá visitar a Ásia ainda neste mês para encontros com líderes do Sudeste Asiático nas Filipinas e para participar do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Shenzhen, China. Essas movimentações indicam que a política comercial americana seguirá sendo tema central, impactando diretamente o comércio internacional e a economia global.
