Proibição do Abate de Jumentos na Bahia
A Justiça Federal determinou a interrupção do abate de jumentos em todo o estado da Bahia. A medida, assinada pela juíza Arali Maciel Duarte, foi motivada por evidências de maus-tratos e práticas consideradas cruéis durante o processo de abate, além do risco de extinção da espécie.
A decisão é uma resposta a uma Ação Civil Pública apresentada por uma Organização de Proteção Animal. Desde 2016, o abate de jumentos na Bahia era regulamentado pela Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), que supervisionava três abatedouros localizados nas cidades de Amargosa, Itapetinga e Simões Filho. Os jumentos abatidos eram, em sua maioria, destinados ao mercado chinês.
Nos últimos anos, entidades de proteção animal intensificaram suas críticas em relação ao abate desses animais. Em agosto de 2025, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) emitiu uma recomendação oficial, chamando a atenção para os riscos ambientais e sanitários envolvidos na criação e no abate de jumentos, além de denúncias de maus-tratos.
Crescimento da Demanda por Jumentos
A demanda por jumentos cresceu consideravelmente após a China começar a importá-los. A pele do jumento é utilizada para produzir o ejiao, um produto com propriedades medicinais valorizado naquele país. O ejiao é uma gelatina extraída da pele dos jumentos, que, após processamento, se transforma em blocos ou pós, sendo incorporado a alimentos e bebidas. Com uma longa tradição na Medicina Tradicional Chinesa, o ejiao é creditado com benefícios como melhora da circulação, combate à anemia e promoção do fortalecimento do sistema imunológico.
Apesar da popularidade do ejiao, que se tornou um produto bilionário na China, a crescente demanda gerou controvérsias. O aumento da procura por peles de jumentos levanta preocupações sérias sobre o bem-estar animal, impactos ambientais e o surgimento de práticas de comércio ilegal em diversos países. Há também um debate no âmbito científico sobre a eficácia dos benefícios atribuídos ao ejiao, com alguns estudos indicando possíveis propriedades, mas sem um consenso robusto sobre todos os efeitos alegados.
Impacto na População de Jumentos em Pernambuco
Em Pernambuco, a situação dos jumentos não é diferente. Nos últimos dois anos, a população de jumentos caiu drasticamente, segundo dados do Sistema de Integração Agropecuária (Siapec). O rebanho de jumentos passou de 18.715 em 2024 para apenas 14.580 até março deste ano, resultando em uma redução de cerca de 22%. Gustavo Lima, fiscal agropecuário da Adagro, comentou sobre a falta de abatedouros de jumentos ou equinos no estado, destacando que a Bahia é o único estado nordestino com abatedouros para essa espécie.
Segundo a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, entre 1996 e 2025, o Brasil perdeu impressionantes 94% de seu rebanho de asininos, englobando burros, bestas e jumentos.
A Desaparecimento do Jumento no Sertão
Associados à cultura do Sertão nordestino, os jumentos têm se tornado cada vez mais raros na paisagem rural. Desde 2016, conforme relata a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, a presença desses animais vem diminuindo. Um documentário intitulado “Na Contramão”, dirigido por Marcelo Pinheiro, expõe essa realidade, mostrando como a equipe de filmagem percorreu mais de 6 mil quilômetros em estados como Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Bahia, documentando a redução do rebanho e o abandono dos jumentos.
Durante as entrevistas realizadas em comunidades rurais, a equipe registrou transformações significativas, como a substituição do jumento por motocicletas e a mecanização da agricultura, além da crescente demanda pela venda de peles para o mercado chinês. Esses fatores refletem um contexto complexo em que os jumentos estão gradualmente saindo de cena, gerando preocupações acerca da preservação da espécie e do bem-estar animal.
