Estratégias inovadoras impulsionam o turismo na Serra Catarinense
Durante décadas, a Serra catarinense foi reconhecida principalmente por suas paisagens naturais, como cânions e montanhas que atraem visitantes de várias regiões do Brasil. Nos últimos anos, porém, o turismo regional vem se transformando com uma estratégia mais ampla: converter esse patrimônio natural em experiências capazes de atrair investimentos, ampliar o tempo de permanência dos turistas e movimentar uma cadeia produtiva que vai muito além da hotelaria tradicional.
A Serra Geral, uma das grandes formações rochosas da América do Sul, ultrapassa os limites da Serra catarinense. Essa cadeia se estende do Paraguai, atravessa o Paraná, divide o litoral do interior de Santa Catarina e segue pelo Rio Grande do Sul, chegando à Argentina e Uruguai. As serras Catarinense e Gaúcha são subdivisões dessa formação, que reúne campos de altitude, cânions, paredões rochosos e vales profundos, formando paisagens únicas.
Novos modelos de negócio ampliam a permanência dos visitantes
A mudança no turismo acompanha uma tendência observada em destinos consolidados, onde o visitante busca algo além da contemplação das paisagens. Hoje, as pessoas querem vivências, conforto, entretenimento e atividades que as façam permanecer mais tempo no local. Nesse cenário, a Serra Geral incorporou modelos inovadores, como empreendimentos em multipropriedade, parques de aventura e roteiros voltados ao turismo de experiência.
Um dos profissionais que acompanha essa mudança é Elias Caetano, montanhista desde 1998 e pioneiro na abertura de cerca de 30 rotas de escalada na Serra Geral Catarinense. Elias atua também no desenvolvimento de projetos turísticos na região e acredita que o desafio sempre foi transformar o potencial natural da Serra em produtos capazes de gerar desenvolvimento econômico sustentável.
“Como transformar um potencial em um produto vendável? A natureza sempre esteve aqui. O desafio foi criar experiências que permitissem às pessoas viver esse território”, destaca Elias.
Montanhismo como ferramenta de valorização e proteção ambiental
A relação de Elias com a Serra começou muito antes dos projetos turísticos. Sua trajetória no montanhismo o fez conhecer profundamente diferentes áreas da região, criando um vínculo forte com esse território. Ele destaca que os montanhistas têm papel essencial na valorização e proteção das montanhas, devido à presença constante e à relação construída com comunidades locais.
“Proteger tamanha exuberância é algo grandioso. Não existe ativismo maior e mais autêntico do que esse. Nós, montanhistas, conhecemos profundamente esse território e assumimos o protagonismo por defendê-lo, conquistando reconhecimento com atitude, ética e coerência”, afirma.
Para Elias, essa atuação está diretamente ligada à convivência diária com o território. “Estamos presentes em cada localidade de forma profunda e frequente, conhecendo moradores, cantos, grotas, cânions, criando laços verdadeiros e valorizando esse patrimônio”, ressalta.
Transformando a Serra em destino turístico acessível e estruturado
Segundo Elias, transformar a Serra em destino turístico também aproxima as pessoas desse patrimônio. Muitos moradores da região ainda veem a cadeia de montanhas apenas como uma barreira geográfica ou uma paisagem distante, sem perceber o potencial econômico e cultural presente ali.
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Para facilitar essa aproximação com segurança e infraestrutura, iniciativas ligadas ao montanhismo e turismo de aventura criaram caminhos para que mais pessoas possam experimentar a Serra. Projetos voltados à prática esportiva, lazer e contato direto com a natureza foram desenvolvidos, incluindo ações da ASGEM e empreendimentos estruturados pela SGV.
A implantação desse modelo exigiu superar a resistência natural de um mercado ainda pouco familiarizado com o conceito. “Tivemos que vencer o medo do novo. A regulamentação é recente e as pessoas precisavam entender que existe segurança jurídica para investir nesse modelo. Com o tempo, a experiência positiva dos primeiros proprietários gerou confiança para novos investidores”, explica Elias.
Multipropriedade e experiências turísticas impulsionam a economia local
Na prática, a multipropriedade amplia o acesso a imóveis de alto padrão, reduz o custo individual do investimento e aumenta a ocupação dos empreendimentos durante o ano, fortalecendo a economia da região. Paralelamente, a Serra investe em criar experiências que transformam seus atrativos naturais em produtos turísticos estruturados.
Trilhas de longo percurso, escaladas, passarelas suspensas, tirolesas e parques de aventura passaram a compor roteiros que vão além da contemplação da paisagem. Elias esteve envolvido na implantação de diversos projetos ligados ao turismo de aventura em municípios como Urubici, Praia Grande, Cambará do Sul e Canela (RS), além da estruturação do Caminho das Araucárias, trilha inspirada em rotas internacionais.
Experiências marcantes elevam o turismo da Serra a outro patamar
Essa transformação representa uma mudança significativa no posicionamento da Serra no mercado turístico. “O turismo precisa proporcionar experiências. Gastronomia, hospedagem e infraestrutura são fundamentais, mas o visitante deve voltar para casa com a lembrança de algo marcante que viveu aqui”, afirma Elias.
Ele destaca que a Serra Geral possui características para se consolidar como um destino de natureza reconhecido internacionalmente, mas que a valorização deve começar dentro da própria região, incentivando moradores e empreendedores a reconhecerem o potencial do território.
“As montanhas da Serra Geral são vivas, com contornos bem desenhados que destacam o contraste entre os campos dourados e os paredões verdejantes dos vales e cânions. A paisagem se torna ainda mais singular quando coberta pela neve, criando uma experiência inesquecível”, descreve Elias.
Inspiração internacional para fortalecer a economia local
Elias cita exemplos internacionais que mostram como a valorização das montanhas pode se transformar em identidade e desenvolvimento econômico, como a Patagônia, Chapada dos Guimarães e Amazônia, além de regiões europeias onde o turismo de montanha é fundamental para a economia local.
“Sou um entusiasta da nossa cordilheira e acredito que podemos consolidar esse território como um destino reconhecido, promovendo suas riquezas e singularidades como estratégia para sua defesa”, afirma.
Ele lembra que cidades próximas a grandes formações naturais souberam transformar essa relação em oportunidade. “Imagine se Cortina d’Ampezzo ignorasse as Dolomitas, Chamonix desconsiderasse o Mont Blanc ou Lauterbrunnen não valorizasse suas encostas rochosas?”, questiona.
Impacto econômico positivo para toda a cadeia produtiva
O novo modelo beneficia toda a cadeia produtiva do turismo. Quanto maior o tempo de permanência do visitante, maior o impacto sobre hotéis, pousadas, restaurantes, comércio, produtores locais e prestadores de serviços.
A geografia da Serra também contribui para esse diferencial. Inserida em uma região de alta importância ambiental, a Serra Geral oferece condições únicas para atividades ao ar livre e turismo de aventura. Transformar esse potencial em produtos sustentáveis e acessíveis é fundamental para o desenvolvimento regional.
“Transformar o potencial da Serra em produtos sustentáveis e acessíveis é parte importante da minha história, especialmente aliada à valorização da cultura local. Sou um entusiasta do montanhismo como vetor para o desenvolvimento sustentável da região”, reforça Elias.
Preservação e crescimento econômico caminham juntos
Preservar esse patrimônio natural não é um obstáculo para o crescimento econômico. Pelo contrário, a conservação tornou-se um diferencial competitivo da região e um ativo para o desenvolvimento de longo prazo.
O turismo, que já representa uma parcela significativa da economia de Santa Catarina, encontra na Serra um cenário promissor, mesmo diante dos desafios de infraestrutura. A transformação do potencial natural em experiências, investimentos e oportunidades consolida um novo momento para a região.
A Serra constrói um modelo onde natureza, inovação, empreendedorismo e preservação caminham juntos. Esse processo fortalece a economia local, valoriza as comunidades e posiciona a região entre os destinos brasileiros que apostam na experiência como principal ativo para o desenvolvimento econômico sustentável.
