Interlocução Direta com os EUA
Antonio Ricardo Alvarez Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), está empenhado em estabelecer um canal direto com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O objetivo principal é tentar mitigar os efeitos do tarifaço que pode atingir diversos produtos brasileiros. A CNI está preparando um documento institucional que destaca como essas medidas podem prejudicar também a indústria americana, já que muitos setores dos EUA dependem de insumos fornecidos pelo Brasil.
Alban explica que a CNI atua em parceria com entidades empresariais americanas para desenvolver argumentos técnicos contra as novas tarifas. A estratégia visa enfatizar a complementaridade das cadeias produtivas entre os dois países e deslocar o debate do campo geopolítico para o econômico. “No fim do jogo, no fim das contas, a economia sempre fala mais alto”, afirmou o presidente da CNI.
Estratégias e Expectativas
Durante a prestação de contas do presidente da Findes, Paulo Baraona, referente ao biênio 2024-2026, Alban concedeu uma entrevista exclusiva ao Folha Vitória. Ele comentou que, apesar das discussões terem sido mais técnicas e focadas em causa e efeito, a decisão final sobre as tarifas cabe aos Estados Unidos. “Depois de 15 de julho, vejo como muito pouco provável uma revogação total da medida”, avaliou.
Segundo Alban, há uma pequena expectativa de redução ou inclusão de novas exceções às tarifas. Para isso, a CNI está construindo um documento em conjunto com entidades empresariais americanas e indústrias dos dois países, ressaltando a interdependência das cadeias produtivas.
Argumentos para Preservar a Competitividade
O documento destacará que muitos produtos brasileiros são insumos essenciais para a indústria americana. Caso os EUA imponham tarifas sobre esses produtos, isso pode elevar os custos de produção interna e aumentar a dependência dos americanos em relação a outros fornecedores, como a China. Alban reforça que a economia americana busca competitividade e que esta é uma oportunidade para que a indústria brasileira e americana funcionem como facilitadoras de entendimento.
“Queremos propor a construção de um grupo privado brasileiro-americano que possa ajudar nas conversas governamentais”, explicou Alban, enfatizando a necessidade de fugir das questões geopolíticas e focar no pragmatismo econômico.
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Fonte: belembelem.com.br
Complementaridade como Pilar Estratégico
Alban defende que políticas públicas, industriais e comerciais devem se basear na complementaridade. Ou seja, identificar vantagens competitivas e estabelecer relações de ganha-ganha. “O mundo está revendo cadeias produtivas, logística e geopolítica. A relação comercial precisa ser construtiva, não apenas circunstancial”, afirmou.
Ele citou o exemplo da Itália, que se destaca em design e moda, e o Brasil, que possui algodão e energia. Atualmente, o Brasil exporta pluma de algodão com alto custo logístico, mas seria mais vantajoso agregar valor, exportando tecidos ou produtos com maior conteúdo industrial.
Oportunidades no Acordo Mercosul-União Europeia
O acordo entre Mercosul e União Europeia pode impulsionar essa complementaridade, se o Brasil souber explorar suas vantagens competitivas e estruturar políticas de Estado. Alban destaca que a Europa enfrenta desafios em energia e matéria-prima, enquanto o Brasil possui energia limpa, matéria-prima abundante e potencial industrial, que, combinados com tecnologia e inovação, podem fortalecer cadeias produtivas.
Nova Indústria Brasil e o Espírito Santo
Sobre a iniciativa Nova Indústria Brasil, Alban acredita que ela oferece um direcionamento importante para o país, apesar de reconhecer que ainda não é perfeita nem suficiente. Ele compara com o agronegócio, que se consolidou como um orgulho nacional graças a políticas agrícolas consistentes, financiamento e pesquisa. A indústria brasileira, segundo ele, precisa de políticas semelhantes que envolvam inovação, tecnologia, financiamento e continuidade.
Quanto ao Espírito Santo, Alban avalia que o estado tem avançado na organização e possui setores estratégicos como mineração, derivados minerais, comércio exterior e logística. A retomada da Samarco evidencia um movimento relevante na cadeia mineral, e o setor automobilístico, aliado a uma estrutura portuária robusta, coloca o estado em posição estratégica.
Desafios para o Espírito Santo Atrair Mais Indústrias
Apesar da vantagem logística, Alban ressalta que o Espírito Santo deve ir além e agregar valor às suas atividades. “O mundo não olha apenas para o porto, mas também para tecnologia, inovação, energia e políticas públicas de longo prazo”, destacou. Para transformar localização e portos em investimento industrial, o estado precisa entender suas peculiaridades e apostar em agregação tecnológica e complementaridade, conectando suas vantagens a outras regiões do Brasil e do mundo.
Os setores com potencial para crescer incluem rochas ornamentais, mineração, logística, comércio exterior, manufatura, setor automotivo e produtos que dependem de uma infraestrutura portuária eficiente.
Energia: Fator Crucial para Competitividade
Alban enfatiza que o Brasil possui uma das energias mais limpas e com menor custo de produção, mas a indústria ainda paga uma das contas mais altas. Esse desequilíbrio impacta diretamente a competitividade industrial. “Energia é a mola propulsora de qualquer transformação”, afirmou.
Sobre o leilão de baterias previsto para outubro, ele ressalta a necessidade de um debate equilibrado sobre fontes energéticas, combinando baterias, Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e térmicas para garantir segurança energética e melhor aproveitamento da energia renovável.
Potencial do Espírito Santo no Cenário Global
Por fim, Alban destaca que o Espírito Santo tem localização estratégica, portos relevantes, cultura exportadora e uma base produtiva sólida. Para aproveitar essas vantagens no contexto das mudanças globais nas cadeias produtivas, o estado deve focar em agregar valor, oferecer energia competitiva, estabelecer políticas de Estado e investir em inovação. Assim, o Espírito Santo poderá ampliar seu espaço no mercado internacional e fortalecer sua indústria.
