Reação imediata dos mercados financeiros à vitória de Lula
A segunda-feira (26/10) foi marcada por uma forte turbulência nos mercados financeiros brasileiros, logo após a confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A bolsa de valores de São Paulo interrompeu suas operações logo na abertura, acionando o circuit breaker após uma queda superior a 10%. Mesmo com a retomada das negociações, o Ibovespa encerrou o dia com uma baixa de 13,88%, a maior desde março de 2020, período em que o mundo enfrentava os impactos iniciais da pandemia de covid-19.
O dólar à vista também sofreu forte valorização, chegando a R$ 5,60 pela manhã e finalizando o dia em R$ 5,40, bem acima do fechamento de R$ 4,99 na sexta-feira (23/10). Os juros futuros tiveram alta expressiva, com contratos para 2031 subindo quase 3 pontos percentuais, sinalizando apreensão dos investidores.
Expectativas frustradas e a correção do mercado
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o movimento nos mercados representa uma correção diante da quebra de expectativa quanto ao resultado das eleições. “O mercado estava alinhado a uma vitória de Flavio Bolsonaro (PL), que apontava para um cenário de maior rigor fiscal e, consequentemente, uma possível redução da taxa básica de juros”, explica o especialista.
Esse cenário otimista, que indicava valorização dos ativos financeiros e crescimento econômico, não se concretizou. Segundo o economista-chefe da NEO Investimentos, Luciano Sobral, “ao invés disso, veio um panorama que o mercado considera negativo, levando os investidores a revisar suas premissas e ajustar os preços dos ativos”. A consequência imediata foi a venda de ações, com investidores reduzindo suas posições diante da nova realidade política.
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Projeções para dólar e juros nos próximos dias
Ambos os analistas concordam que o mau humor dos mercados deve persistir nos próximos dias, ainda que uma estabilização seja esperada ao longo da semana. O dólar deve permanecer em níveis mais elevados, acima dos R$ 5, refletindo o novo cenário político-econômico. Santos Filho destaca que “a bolsa deve se recuperar parcialmente, principalmente empresas exportadoras, que se beneficiam da desvalorização do real e receitas em dólar”.
No entanto, a trajetória dos juros futuros é mais incerta. Antes do segundo turno, o mercado projetava cortes sucessivos da Selic, atualmente em 13,75% ao ano. Agora, a continuidade dessa queda dependerá do comportamento do dólar, que afeta a inflação devido à dependência da economia brasileira de importações, aponta o professor da ESPM.
Desafios fiscais e o papel do novo governo
As decisões do governo eleito terão papel crucial para acalmar o mercado e definir o rumo da política econômica. Cassio Viana de Jesus, diretor de investimento da Pilar Capital, ressalta que a percepção sobre a sustentabilidade das contas públicas será determinante. Estima-se que a estabilização da dívida pública exija superávits primários entre 1,5% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB), um desafio fiscal considerável diante das promessas de gastos bilionários anunciadas durante a campanha.
“A composição da equipe econômica, a base de sustentação no Congresso e a capacidade de implementar reformas estruturais serão fundamentais para reduzir a volatilidade nos mercados”, analisa o gestor. Enquanto essas definições não estiverem claras, a instabilidade no câmbio, juros e ações tende a persistir.
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Quem comandará a Fazenda? O mercado aguarda sinais
O nome escolhido para o Ministério da Fazenda é uma das principais incógnitas que pesam sobre a confiança dos investidores. Entre os cotados estão o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles. Santos Filho observa que Alckmin possui uma trajetória mais familiar ao mercado, enquanto Fonteles, com formação técnica e experiência na Secretaria de Fazenda do Piauí, pode representar uma abordagem mais técnica, mas dependente das diretrizes presidenciais.
Luciano Sobral destaca que, apesar da atuação de Alckmin no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) ter aproximado a agenda governamental da Fiesp, essa política não é vista com bons olhos pelo mercado, que a considera ineficiente. “Alckmin é um ponto de interrogação para o mercado, não uma rejeição imediata, mas também sem credibilidade instantânea”, comenta.
O comportamento dos investidores estrangeiros também será decisivo para a estabilidade dos mercados. Sobral acredita que pode haver pressão de venda de ativos em reais por semanas, a menos que investidores internacionais identifiquem oportunidades para comprar a preços mais baixos, equilibrando o fluxo de capitais.
Com a economia brasileira em um momento delicado, o mercado aguarda respostas rápidas do governo para conter a alta do dólar e a volatilidade dos juros, elementos que impactam diretamente o custo de vida, o acesso ao crédito e o ritmo da atividade econômica no país.
