Paralisação na Bolsa Reflete Incertezas Pós-Vitória de Lula
Na manhã desta segunda-feira (26), a Bolsa brasileira (B3) acionou o circuit breaker logo na abertura do pregão, marcando o primeiro dia de negociações após a confirmação da vitória do presidente Lula (PT) nas eleições. Este mecanismo, que interrompe as negociações diante de fortes quedas, não era acionado desde março de 2020, quando a pandemia provocou instabilidade global nos mercados.
A paralisação inicial, prevista para 30 minutos, se estendeu além do esperado. Ao retomar as operações, a queda se intensificou para 15,9%, quase desencadeando uma segunda suspensão. Apesar do limite usual para uma segunda parada ser de 15%, a B3 flexibilizou esse teto para 20% devido à influência das expectativas dos investidores estrangeiros.
Incertezas Políticas Amplificam Desconfiança dos Investidores
Roberta Folgueral, diretora comercial de câmbio e operações da B&T XP, prevê que o circuit breaker pode ser acionado novamente durante o dia. O ambiente permanece carregado de incertezas, sem sinais claros de recuperação até o encerramento deste pregão.
Além disso, declarações de Flávio Bolsonaro, candidato derrotado e integrante do partido Bolsonaro (PL), sobre a possibilidade de contestação e anulação dos resultados eleitorais aumentam a apreensão. Essas manifestações colocam em xeque a credibilidade das instituições brasileiras, o que pode afastar ainda mais investidores estrangeiros.
Dólar em Alta e Quedas Expressivas nas Ações
O câmbio reflete o clima negativo. O dólar iniciou o dia em alta de 8,65%, cotado a R$ 5,42, contra o fechamento de R$ 4,99 na sexta-feira (23). Em menos de uma hora, a moeda americana chegou a R$ 5,60. Em contraste, o euro se manteve estável, girando em torno de R$ 5,56.
Este cenário contrasta com o período pós-primeiro turno, quando o dólar caiu 4,12% após Flávio Bolsonaro (PL) liderar a votação, encerrando o pregão a R$ 5,00.
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As ações sofreram perdas severas. Os papéis da Petrobras recuavam mais de 10%, enquanto os do Banco do Brasil despencavam acima de 30%. Magazine Luiza enfrentou queda superior a 50%, e a própria B3 viu suas ações (B3SA3) caírem 47,48%.
Como Funciona o Circuit Breaker no Mercado Financeiro Brasileiro
O circuit breaker é um mecanismo que suspende temporariamente as negociações quando o Ibovespa registra uma queda de 10% em relação ao fechamento anterior, parando as operações por 30 minutos. Se, após a retomada, a perda chegar a 15%, há nova paralisação, desta vez por uma hora. Chegando a 20%, a B3 pode determinar uma nova suspensão e definir seu período.
O Ibovespa é o principal índice da Bolsa brasileira, representando uma cesta das ações mais negociadas na B3. Sua queda indica a desvalorização média dessas empresas, impactando todo o mercado abrangido.
O último acionamento do circuit breaker ocorreu em 18 de março de 2020, quando o mecanismo foi disparado seis vezes devido à crise causada pela pandemia. Naquela ocasião, paralisações similares também foram registradas nos mercados dos Estados Unidos e Canadá.
Investidores Estrangeiros Já Demonstravam Pessimismo Antes da Abertura
Antes do pregão, o mercado futuro já indicava forte pressão sobre as ações brasileiras. O contrato futuro do Ibovespa inicialmente atingiu o limite de queda de 15%. Em resposta à volatilidade, a B3 elevou esse limite para 20%, e o índice futuro chegou a recuar 19,7%, caindo para 167 mil pontos.
Nos Estados Unidos, o fundo EWZ, que acompanha ações brasileiras, despencou cerca de 26% no pré-mercado após a confirmação da vitória de Lula. Isso se opõe à reação após o primeiro turno, quando o fundo subiu 12,5% com a liderança de Flávio Bolsonaro.
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As ações brasileiras negociadas no exterior também sentiram o impacto. As ADRs do Itaú caíram mais de 26%, para pouco acima de US$ 7, enquanto as da Petrobras recuaram mais de 20%, ficando na faixa de US$ 20.
Análise do Mercado Aponta Aumento do Risco Fiscal
Especialistas observam uma mudança nas expectativas em relação ao novo governo. A aposta anterior de um perfil fiscal mais controlado deu lugar a uma perspectiva de manutenção dos juros elevados por mais tempo, caso Lula não demonstre disposição para ajustar sua postura econômica.
O risco maior associado ao investimento no país exige remunerações superiores para quem aplica em ativos brasileiros, refletindo a incerteza fiscal.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, destaca que a reação dos mercados representa a reversão do “trade eleitoral” que se formou após o primeiro turno, quando a liderança de Flávio Bolsonaro gerou otimismo sobre políticas econômicas favoráveis e compromisso com o equilíbrio fiscal.
“Esse trade eleitoral perde força. Estamos vendo uma queda significativa nas ações brasileiras e uma alta expressiva do dólar”, afirmou Alves.
Além disso, ele ressalta que a curva de juros também pode ser afetada, na medida em que investidores passam a observar com atenção a gestão das contas públicas no próximo governo. “A situação fiscal é central para a percepção de risco do país e para a trajetória da sua moeda”, concluiu.
