Aumento expressivo da população idosa e impacto na saúde
O Espírito Santo enfrenta um crescimento de 73% na população idosa, um dado que traz desafios significativos para o sistema de saúde local. O estudo Retrato da Saúde Capixaba, apresentado pelo Connect Fecomércio-ES durante o 7º Rede Saúde Summit em Vitória, mostra que esse envelhecimento populacional ocorre junto a um aumento expressivo das internações por câncer e doenças do aparelho circulatório, além da concentração dos serviços de saúde na Grande Vitória e da estabilidade no número de leitos hospitalares.
Internações crescem, mas leitos permanecem estáveis
Entre 2015 e 2025, as internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) relacionadas a neoplasias aumentaram 57,2%, passando de 18.447 para 29.003 casos no Espírito Santo. As hospitalizações por doenças do aparelho circulatório, que incluem infarto e acidente vascular cerebral (AVC), subiram 39,1%, de 24.270 para 33.767. Também houve crescimento nas internações por doenças respiratórias (19,8%) e por causas externas, como acidentes e violências (59,7%). Somados, esses quatro grupos tiveram aumento de 43,7% em uma década.
Apesar do número de estabelecimentos de saúde aumentar 5,6% entre junho de 2025 e o mesmo período de 2026, passando de 9.499 para 10.027 unidades, a quantidade de leitos hospitalares permanece praticamente estável, com leve redução de 0,1%. Atualmente, dos 11.029 leitos disponíveis, 7.095 atendem pelo SUS (64,3%), enquanto 3.934 são destinados a pacientes do setor privado.
Concentração de serviços e desigualdades regionais
Metade dos estabelecimentos de saúde está concentrada na Região Metropolitana, principalmente na Grande Vitória, com 5.092 unidades (50,8% do total). As regiões Sul, Central e Norte têm respectivamente 20,6%, 18,5% e 10,1% dos serviços. Essa concentração também reflete na disponibilidade de leitos por mil habitantes: 2,76 na Região Metropolitana, contra 2,67 na Sul, 2,62 na Central e 2,10 na Norte.
Essa desigualdade regional dificulta o acesso de pacientes do interior a especialistas, exames e tratamentos complexos, especialmente para idosos, que enfrentam limitações de mobilidade, dependência de acompanhantes e necessidade de acompanhamento frequente.
Telemedicina como recurso, mas com limitações
A telemedicina surge como alternativa para aproximar pacientes e profissionais distantes dos grandes centros, possibilitando consultas, acompanhamento de doenças crônicas e orientação entre equipes. Contudo, segundo Wilson Zatt, fundador da plataforma Lauduz, o atendimento remoto deve garantir segurança das informações, protocolos adequados, profissionais treinados e integração com o atendimento presencial.
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Além disso, a telemedicina não substitui todos os atendimentos presenciais nem resolve sozinha a desigualdade na oferta de serviços. O uso da tecnologia deve considerar também as dificuldades de acesso à internet, baixa familiaridade com aplicativos e limitações físicas e cognitivas comuns entre idosos.
Necessidade de mudança no modelo de cuidado
O aumento das doenças crônicas demanda uma transformação no modelo de atenção à saúde, priorizando o cuidado preventivo, contínuo e coordenado, alerta Fátima Pinho, sócia da Deloitte Brasil. Isso envolve atenção primária, acompanhamento constante, vacinação, exames regulares, orientação sobre hábitos saudáveis e troca de informações entre profissionais.
Embora 92% das instituições possuam sistemas eletrônicos, apenas 23% dos profissionais receberam treinamento recente, indicando que a tecnologia ainda não está plenamente integrada ao trabalho clínico, o que pode prejudicar a continuidade e a qualidade do atendimento.
Jornadas complexas para pacientes idosos
Para idosos, a experiência de buscar atendimento é mais desafiadora. Mariana Cerone, executiva da Up Brasil e professora da ESPM, destaca que a jornada do paciente vai além de indicadores técnicos, envolvendo etapas como agendamento, autorização, deslocamento, exames e retorno médico.
Barreiras simples, como a necessidade de agendamento via aplicativo ou linguagem técnica, complicam o acesso e aumentam a dependência da família. Organizar o atendimento para que o paciente compreenda e não precise repetir informações é essencial para melhorar essa experiência.
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Segurança reforçada diante da maior demanda
O aumento dos atendimentos exige maior atenção à segurança hospitalar. No Hospital Israelita Albert Einstein, em Goiânia, mais de 200 riscos foram mapeados entre 2022 e 2026, sendo 39 críticos relacionados principalmente ao uso de medicamentos, dispositivos invasivos, cirurgias e sepse.
Para idosos, a segurança medicamentosa é crucial, considerando o uso simultâneo de vários remédios. Falhas na comunicação entre serviços podem comprometer a continuidade do tratamento após internações.
Saúde suplementar também cresce no Espírito Santo
Em junho de 2026, o Espírito Santo contabilizava 1.416.557 beneficiários de planos de assistência médica, um aumento de 2,5% em relação ao ano anterior, abrangendo 34,6% da população local. Nos planos odontológicos, a cobertura chegou a 948.793 pessoas, crescimento de 8,4%.
Apesar do avanço da saúde suplementar, a maior parte da população ainda depende do SUS, e usuários de planos costumam recorrer ao sistema público em casos de urgência e tratamentos complexos.
Desafios para o futuro da saúde capixaba
O crescimento da população idosa impõe a necessidade de investir em profissionais capacitados, prevenção eficaz, integração de informações e melhor distribuição dos serviços de saúde. O desafio não está apenas em ampliar o número de unidades, mas em garantir atendimento de qualidade, acessível e coordenado para todos os capixabas.
