Uma História de Resgate e Valorização das Sementes Crioulas no Brasil
Aos 34 anos, Rosana Martuchelli Nogueira, nascida e criada em Teresópolis (RJ), sempre se sentiu incomodada com as transformações que afetavam o Vale dos Lúcios, onde cresceu. Vinda de uma família de agricultores, ela observou de perto o empenho de seus pais para manter vivas suas sementes a cada safra. “Quando comecei a trabalhar na lavoura, percebi que, ao plantar feijão, meu pai retirava as sementes de um armário. O que sobrava, ele deixava para o consumo familiar. A mágica? As sementes nunca estragavam após longos períodos guardadas”, relembra Rosana, que agora possui 51 anos.
A explicação dada por seu pai, sobre o “pó de onde a semente foi cultivada”, foi validada por estudos da Embrapa, que identificaram a presença de um microrganismo responsável por proteger as sementes de pragas, como o caruncho. “Incrível como meu pai seguia esse processo instintivamente, sem saber que estava adotando práticas corretas”, afirma.
Hoje, Rosana se destaca por preservar um verdadeiro patrimônio: as sementes ancestrais de milho e feijão. Essas variedades não foram submetidas aos modernos métodos de melhoramento genético que geram híbridos e transgênicos, os quais exigem a recompra a cada nova safra. Incomodada com a crescente popularidade dos cultivos híbridos em sua região, ela decidiu resgatar o plantio de sementes crioulas, uma iniciativa que se mantém firme até os dias atuais.
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A mil quilômetros de distância, em Palmeira (PR), a agricultora Ana Andréa Jantara compartilha a mesma preocupação e decidiu criar seu próprio banco de sementes. “Com o tempo, percebi que as sementes crioulas estavam se tornando cada vez mais escassas. Meu objetivo é resgatá-las para que meus filhos também possam desfrutar desses alimentos”, explica.
Ana Andréa cultiva mais de 200 variedades de sementes crioulas, incluindo grãos, legumes e hortaliças. Seu trabalho a transformou em uma referência na região, recebendo sementes de outros produtores que estão encerrando seus ciclos de plantio. “Cada semente carrega a história de um povo, de pessoas e comunidades inteiras”, ressalta.
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Para o engenheiro agrônomo Leandro Barradas, professor do curso técnico de Agronomia da Escola Técnica Estadual de Andradina, essas variedades são cruciais por sua rusticidade e adaptação ao ambiente de origem, onde foram selecionadas ao longo de gerações. “Elas garantem soberania e autonomia aos agricultores. Ao contrário das sementes híbridas, que exigem um pacote tecnológico atrelado, elevando o custo de produção. No caso do milho transgênico na região de Andradina, o custo pode variar entre R$ 5 mil e R$ 6 mil por hectare, enquanto o milho crioulo, cultivado de forma agroecológica, custa apenas entre R$ 1 mil e R$ 2 mil”, explica Leandro.
Essa valorização das sementes crioulas representa um verdadeiro movimento de resistência e preservação cultural, que não apenas garante a diversidade alimentar, mas também promove a autonomia dos agricultores diante de um mercado cada vez mais dominado por sementes convencionais e suas exigências financeiras. Em tempos em que as mudanças climáticas e a insegurança alimentar se tornam questões prementes, iniciativas como as de Rosana e Ana Andréa podem ser vistas como faróis de esperança na busca por um sistema alimentar mais justo e sustentável.
