Desafios Geopolíticos e Oportunidades para o Brasil
No contexto atual da guerra no Irã, o agronegócio mundial enfrenta uma série de desafios, mas o Brasil continua a se destacar em relação aos Estados Unidos. Desde o início do mandato de Donald Trump, em 2017, o setor agrícola norte-americano tem enfrentado dificuldades, incluindo um crescente déficit comercial e uma inflação elevada, forçando os produtores a depender de subsídios governamentais sem precedentes.
A situação se agravou com o conflito no Oriente Médio, o que impactou diretamente a janela de plantio no Hemisfério Norte, coincidentemente em um momento em que os insumos estão com preços elevados, principalmente devido ao fechamento do Estreito de Ormuz. O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, destaca que “Trump já havia implementado um processo de encarecimento dos fertilizantes nos EUA ao longo do último ano, e agora, com a guerra, os produtores americanos enfrentam um cenário ainda mais complicado, já que precisam plantar em abril e maio”.
Apesar dos brasileiros também enfrentarem o aumento de custos, o cenário atual pode favorecer a expansão das exportações nacionais, uma tendência que já se desenhava nos últimos anos, mas que se intensificou recentemente. Com o crescente acirramento das tensões geopolíticas durante o primeiro governo Trump, a China, maior importadora global de commodities, foi forçada a substituir suas compras dos EUA, e o Brasil rapidamente se posicionou para ocupar esse espaço.
O Crescimento da Exportação Brasileira
Além da questão geopolítica envolvendo a China, o aumento dos custos nos EUA permitiu que produtos brasileiros ganhassem espaço em outros mercados, como o Oriente Médio e a Ásia, onde as exportações registraram crescimento de 20,4% e 24,5%, respectivamente, no último ano. O Brasil expandiu suas vendas de carnes e milho para o Sudeste Asiático, atendendo a uma classe média em ascensão que busca alternativas aos fornecedores americanos.
Os dados mostram que, mesmo para o mercado norte-americano, o Brasil tem aumentado suas exportações. Em um momento em que os EUA enfrentam a menor quantidade de gado bovino desde 1951, o Brasil se tornou, em 2025, o maior produtor mundial de carne bovina, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Esse avanço fez com que o Brasil chegasse mais perto de superar os Estados Unidos como o maior exportador agrícola total do mundo, alcançando o montante de US$ 169,2 bilhões em exportações, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em contraste, os EUA exportaram US$ 171,3 bilhões, apresentando uma queda de 2,8% em relação a 2024.
Competitividade em Jogo
A diferença de apenas US$ 2,1 bilhões entre as exportações brasileiras e norte-americanas representa menos de uma semana de vendas agrícolas do Brasil. Para Roberto Dumas, professor do Insper e especialista em economia chinesa, a política tarifária de Trump foi prejudicial: “Ele deu um tiro no pé. Impor tarifas acreditando que isso traria a produção de volta para os EUA é um contrassenso, pois o país perdeu competitividade”.
Diversos relatórios de instituições financeiras que monitoram o setor indicam que o Brasil foi o país que mais se beneficiou com as mudanças no agronegócio dos EUA, seguido por nações como Argentina, Rússia, Austrália, Vietnã e Índia. Atualmente, o Brasil responde por 70% das importações de soja da China e aproximadamente 50% no caso do milho, enquanto os EUA têm uma fatia marginal ou sazonal desses mercados. Na visão de Vale, “os EUA têm contribuído muito para o fortalecimento do Brasil na última década”.
