Alta volatilidade nos preços da batata-inglesa afeta consumidores gaúchos
O preço da batata-inglesa tem apresentado variações expressivas nas feiras e supermercados do Rio Grande do Sul ao longo do primeiro semestre de 2026. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que, em Porto Alegre, o valor médio do quilo subiu de R$ 3,60 em janeiro para R$ 8,79 em junho, um aumento de 144,2%. Após essa alta, houve uma retração para R$ 5,43 em agosto. Entre julho e agosto, a batata foi o produto que mais registrou queda de preço na capital gaúcha, recuando 22,98%.
Preços ao produtor refletem cenário desafiador para a safra nacional
Embora o consumidor tenha visto oscilações nos preços, o valor recebido pelos produtores não acompanhou esse movimento de forma linear. O pesquisador João Paulo Bernardes Deleo, do Cepea Esalq/USP, aponta que, apesar de picos em maio e junho, os valores pagos no campo começaram o ano em patamares baixos, com R$ 37,15 em janeiro e R$ 41,54 em fevereiro. Em julho e agosto, os preços despencaram novamente, alcançando R$ 61,37 e R$ 51,49, respectivamente. Em 2025, as cotações se mantiveram relativamente estáveis, com um máximo de R$ 69,90 em maio.
Esse cenário reflete uma crise no setor, marcada por instabilidade climática e aumento dos custos de produção. O presidente da Associação Brasileira de Batata In Natura (Abbin), Marcos Boschini, destaca que o fenômeno El Niño trouxe altas temperaturas e chuvas acima da média em regiões como Minas Gerais e São Paulo, prejudicando a produtividade no primeiro semestre. No Sul do país, chuvas intensas e dificuldades no plantio devem reduzir a oferta nacional, pressionando os preços para cima a partir de dezembro.
Oferta limitada e custos elevados impactam o mercado interno
Apesar da estagnação na demanda por limitações de renda, a expectativa é que a oferta diminua nas regiões Sul e Sul-Sudeste devido aos contratempos climáticos. Para compensar as perdas, áreas cultivadas em locais como Triângulo Mineiro e Bahia estão sendo ampliadas, mas, segundo Boschini, essa expansão não será suficiente para suprir as limitações do mercado interno.
Leia também: Clima impulsiona nova fronteira de valor para o agronegócio brasileiro
Fonte: soudebh.com.br
Leia também: Clima e custos pressionam produção de batata no RS e no Brasil
Fonte: curitibainforma.com.br
O custo para produzir um hectare de batata varia entre R$ 55 mil e R$ 70 mil, incluindo mão de obra, sementes, arrendamento e irrigação. Em polos de processamento industrial, como São Francisco de Paula, os produtores enfrentam a concorrência da batata pré-frita importada, vendida a preços próximos ou inferiores ao custo nacional.
Importação e produção industrial influenciam dinâmica do setor
Atualmente, o Brasil planta cerca de 120 mil hectares de batata, dos quais 65% destinam-se ao consumo in natura e 35% à indústria. Do total consumido industrialmente, 37% é importado, principalmente da Argentina (55%), seguida pela Bélgica (17%) e Holanda (11%). Essa competição externa afeta diretamente os preços e a sustentabilidade dos produtores locais.
Plantio no Rio Grande do Sul sofre atraso por excesso de chuva
O plantio da batata no Rio Grande do Sul começou, mas o excesso de chuvas tem atrasado o calendário. Conforme Orlando Junior Kramer Velho, extensionista da Emater/RS-Ascar, apenas cerca de 5% das lavouras estão plantadas neste momento, enquanto em anos anteriores a cobertura já era considerável. Apesar disso, ele acredita que a safra pode se beneficiar da redução de áreas de outras culturas, já que muitos produtores diversificam suas plantações entre soja, milho e batata.
O Rio Grande do Sul possui 872 unidades produtivas, com uma área cultivada de aproximadamente 18,1 mil hectares. A produção estimada para safra e safrinha é de 608,3 mil toneladas, com produtividade média de 33,5 toneladas por hectare. O município de Bom Jesus lidera a produção estadual, atraindo produtores como a família Wonsovicz, que mantém a tradição no cultivo desde a década de 1980.
Leia também: Onde Mora Renner da Dupla Rick e Renner? Descubra a Trajetória e Residência do Cantor
Fonte: decaruaru.com.br
Desafios econômicos ameaçam sustentabilidade da produção
Elizando Wonsovicz destaca que o mercado está crítico há dois anos, afetado por períodos alternados de seca e chuva. Além do clima, ele aponta que o preço pago ao produtor está abaixo do necessário para cobrir os investimentos, prejudicando a rentabilidade. O aumento do consumo de batata industrializada importada, sobretudo de produtos pré-cozidos, compromete ainda mais a produção nacional, que enfrenta custos elevados e alta carga tributária.
Consumo em queda e necessidade de reinvenção do setor
O consumo per capita de batata in natura no Brasil caiu de 16 para 12 quilos anuais nas últimas duas décadas, segundo a Abbin. A percepção cultural de que a batata é um legume, e não um alimento fundamental, contribui para essa redução. Em comparação, países da Europa e a Argentina valorizam a batata como fonte importante de carboidratos.
O setor busca formas de se reinventar para recuperar espaço nas mesas brasileiras. A história da batata tem raízes profundas, desde seu cultivo pelos povos andinos até seu papel crucial na alimentação europeia durante períodos de crise nos séculos XVII e XVIII. No Brasil, o tubérculo chegou no século XIX, trazido por imigrantes europeus, e se consolidou especialmente nas regiões Sul e Sudeste.
Além da agricultura, a batata também inspirou a arte. O pintor Vincent van Gogh retratou o alimento em obras como “Os Comedores de Batata” (1885) e “Natureza-Morta com Batatas” (1886), refletindo a importância cultural do tubérculo.
