Rejeição do Indicado e Seus Impactos
A utilização excessiva da hipérbole em análises políticas pode distorcer a realidade. Entretanto, a derrota de Jorge Messias, indicado por Lula ao Supremo Tribunal Federal (STF), na quarta-feira, dia 29, é, sem dúvida, um acontecimento histórico. O Senado rejeitou a indicação por 42 votos a 34, algo que não se via desde 1894, quando o então presidente Floriano Peixoto teve ao menos cinco nomes de militares recusados por falta de ‘notório saber jurídico’. Messias, que estava ao lado da esposa, Karina, expressou sua frustração: “É desafiador para mim enfrentar uma reprovação. Mas confio nos planos de Deus para minha vida. Minha trajetória não termina aqui”.
Essa rejeição gera um vácuo, visto que a Constituição exige uma nova indicação, e a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, que se aposentará em 2025, permanecerá em aberto. A vitória da oposição representa um dos principais obstáculos encontrados por Lula em seu terceiro mandato, enfraquecendo seu governo e sua candidatura petista a menos de seis meses das eleições de outubro. O presidente, acossado pela situação, buscou minimizar o impacto ao comentar: “Tenho o direito de indicar, assim como o Senado tem o direito de aprovar ou rejeitar”.
O Cenário Político se Agrava
A rejeição de Messias foi histórica, e agora é fundamental analisar o desenrolar dessa derrota, que já era esperada, mas que ainda assim surpreendeu pela magnitude. O ambiente político em Brasília, geralmente repleto de desilusões, dessa vez apresentou uma clareza inesperada, sem disfarces, revelando uma batalha aberta.
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Antes do anúncio do resultado, um áudio vazado escutado por alguns senadores revelou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), comentando com o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), sobre a provável derrota: “Vai perder por oito”. E assim se concretizou. O desfecho, dramático, foi uma consequência de um embate intenso, sendo que a oposição, especialmente a direita bolsonarista, tem se manifestado contra a relação entre o governo e o STF, ambos vistos como alvos a serem combatidos.
A pressão aumentou com o limite imposto pelo STF em relação às emendas parlamentares, especialmente sob os cuidados de Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, e do julgamento de figuras envolvidas nos eventos golpistas de 8 de janeiro de 2023, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre pena em prisão domiciliar. A situação se complicou ainda mais com a derrubada, na quinta-feira, dia 30, do projeto que buscava barrar a redução das penas dos condenados por aqueles eventos, que obteve 328 votos a favor, 144 contrários e cinco abstenções.
Desdobramentos e Efeitos nas Relações de Poder
A recusa a Messias também revela descontentamento por parte de Alcolumbre, que ficou chateado com a desistência de Lula em indicar o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) ao STF, uma escolha que ele defendia com veemência. A oposição enfatiza a narrativa de uma suposta aliança entre o governo e o STF para deslegitimar o Congresso, o que parece ter conquistado o apoio de alguns senadores centristas.
Entre os articuladores da oposição estavam Alcolumbre e o senador Flávio Bolsonaro, que almeja a presidência em 2026, além de Rogério Marinho, que coordenava a campanha de Flávio. Marinho avisou a Alcolumbre sobre a unificação da oposição e a reversão de votos de senadores do Centrão que inicialmente estavam alinhados ao governo. Lula estava ciente dos riscos, mas decidiu seguir em frente. Seus conselheiros lembraram que aprovações anteriores, como as do procurador-geral da República e de Flávio Dino, ocorreram por margens apertadas, um alerta que não foi levado em conta pelo presidente.
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Consequências Imediatas e o Futuro do Executivo
Com o resultado da votação, Alcolumbre deixou claro que daqui em diante nada será aprovado no Senado sem antes um acerto com ele. Isso indica que, nos próximos meses, a relação entre o Executivo e o Legislativo será muito complicada. Um interlocutor de Lula comentou: “Agora é uma guerra”. O governo subestimou a capacidade de controle sobre os votos dos senadores, e essa derrota na sabatina terá impactos diretos nas pré-campanhas eleitorais.
A perplexidade do governo e a celebração da oposição se tornaram visíveis. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que a situação do Senado não é surpreendente, especialmente em um contexto eleitoral. O presidente do PT, Edinho Silva, reconheceu a disposição de setores do Congresso em enfraquecer o Judiciário, enquanto a ex-ministra Gleisi Hoffmann falou sobre um “grande acordão” entre a oposição e outros que visam interesses eleitorais.
Avanços e Desafios para o STF
A resposta da oposição foi contundente. Flávio Bolsonaro declarou que “o governo Lula chegou ao fim, sem respeitabilidade ou governabilidade”. Ele também mencionou que o governo está colhendo os resultados de uma postura desdenhosa em relação ao Congresso e por governar via Supremo. O ex-governador Romeu Zema (Novo) também se manifestou, celebrando a rejeição como um “gol”.
Desde o início da gestão de Lula, a falta de articulação política tem sido evidente. No dia da votação, assessores do presidente indicavam que teriam entre 45 e 48 votos a seu favor, número que não se concretizou. A oposição somou 42 votos, com muitos deles provenientes do Centrão, que recebeu uma parcela significativa de emendas recentemente. As tentativas de troca de senadores na comissão onde ocorreu a sabatina não surtiram efeito, já que a realidade no plenário foi bem diferente.
Perspectivas e Desafios Futuros
Messias, um respeitado militante do PT e da burocracia federal, fez o possível durante a sabatina, defendendo a autocontenção do Judiciário e a harmonia entre os Poderes, além de se opor ao aborto. Sua apresentação foi bem recebida, mas a derrota no plenário foi devastadora. A pressão gerada pela rejeição pode ter reflexos até mesmo no STF, onde o ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro, se esforçou para garantir a aprovação de Messias.
A nova indicação para o STF ainda não tem prazo definido. A oposição sugere que a vaga seja deixada em aberto até 2027, o que apresentaria dois problemas: a falta de um ministro por um longo período e a disputa política sobre o controle do STF nas próximas eleições. Lula pode não querer abrir mão de fazer uma nova indicação, enquanto a direita busca garantir uma renovação significativa no Senado para aumentar suas chances de impeachment de magistrados. O cenário é tenso, e os próximos meses indicarão como Lula irá lidar com essa situação, que, embora não ameace as instituições, traz desafios inegáveis à sua governabilidade e à estabilidade do STF.
