Expectativas e Desafios do agronegócio Brasileiro à Luz da Queda da Selic
O vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil (BBAS3), Gilson Alceu Bittencourt, expressou sua crença de que o setor agrícola deve apresentar uma rápida reação, caso a taxa Selic continue a cair. “Se há uma sinalização de redução da taxa de juros, mesmo que em um ritmo mais lento do que o esperado, isso aponta para um futuro mais favorável — tanto para novos investimentos quanto para a busca de soluções financeiras junto às instituições e credores”, afirmou em entrevista ao Money Times, durante a Agrishow.
Bittencourt ressaltou que parte da inadimplência está concentrada em grandes indústrias de máquinas e insumos, o que traz um desafio adicional ao setor. Com uma carteira de R$ 406 bilhões voltada para o agronegócio, o Banco do Brasil visa estabilizar sua atuação até 2026, considerando os vencimentos que precisam ser geridos e o mercado de crédito mais restrito.
No contexto da Agrishow, o Banco projeta um movimentação de negócios da ordem de R$ 3 bilhões. “Ainda estamos no início da feira, cerca de um dia e meio, e o desempenho está positivo. Temos boas chances de atingir esse objetivo”, garantiu Bittencourt.
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Perspectivas para o Setor: Isenções e Linhas de Crédito
Para facilitar as operações durante a feira, o Banco do Brasil anunciou isenção da taxa operacional e linhas de pré-custeio para a safra 2026/2027. As taxas começam em 8% para médios produtores e aproximadamente 11% para grandes, além de oferecer maior disponibilidade de recursos equalizados, especialmente para maquinário, devido à redistribuição feita pelo governo ao longo do ano no âmbito do Plano Safra.
Desafios Estruturais e Cenários de Adimplência
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Em sua análise, Bittencourt refutou a ideia de que o agronegócio enfrenta uma crise estrutural, enfatizando que os desafios são pontuais. “A prova disso é a safra que estamos colhendo, que mostra um aumento na área, produção e produtividade, evidenciando a força do setor”, destacou. Ele acredita que o processo de adimplência tenderá a se recuperar, especialmente com os critérios mais rigorosos adotados nas concessões de crédito e o foco na capacidade de pagamento dos produtores.
Entretanto, o cenário desafiador se concentra em algumas regiões do Centro-Oeste e entre determinados perfis de produtores. Ele observa que os preços agrícolas não estão baixos em relação à média histórica, mas sim dentro de um patamar normal, especialmente após o período excepcional entre 2020 e 2023, quando os preços atingiram níveis recordes.
O Que Fazer em Tempos Difíceis? Estratégias para Produtores Alavancados
Para os produtores alavancados, Bittencourt sugere a redistribuição de seus vencimentos em prazos mais longos como a primeira ação necessária. “Com a MP 1314, renegociamos ou contratamos R$ 36,6 bilhões. Desse total, R$ 33 bilhões são com taxas livres, sendo mais da metade dessas taxas pós-fixadas, o que significa que, à medida que a Selic cai, a taxa de juros também cairá, beneficiando os produtores”, destacou. Contudo, ele enfatiza que não basta apenas alongar a dívida. Ajustes financeiros devem ser feitos, incluindo a revisão de custos e, em alguns casos, a venda de ativos.
Recuperações Judiciais: Um Processo em Evolução
Gilson Alceu Bittencourt também abordou o tema das recuperações judiciais, que ainda estão em um processo de aprendizado tanto para os produtores quanto para o Judiciário. Ele manifestou que, embora o uso deste instrumento seja adequado em alguns casos, também existem distorções, como pedidos feitos apenas para postergar dívidas. O novo provimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) trouxe clareza às normas, favorecendo um ambiente mais seguro para os envolvidos. Bittencourt observa que já existem produtores que, após recorrer à recuperação judicial, estão buscando sair do processo, pois essa opção não se restringe a suspender pagamentos.
