Desafios para a Sustentabilidade na Amazônia
A jornalista Marina Rossi, autora do livro “O Cerco, a Amazônia invadida pelo agro”, traz à tona um tema urgente: a necessidade de vontade política para enfrentar o desmatamento no Brasil. Em sua análise, Rossi destaca que, embora existam propostas viáveis para frear a destruição ambiental, a falta de comprometimento político tem sido um empecilho significativo. Ao longo de mais de uma década de investigação da cadeia da carne e dos conflitos fundiários na Amazônia, ela chegou à conclusão de que soluções já estão sendo debatidas por especialistas e organizações, mas que iniciativas isoladas são insuficientes para lidar com um problema tão estrutural e histórico.
“Há solução, sem dúvida. Tem muita gente boa debruçada sobre essa problemática hoje e propondo soluções viáveis”, diz Rossi. No entanto, adverte que o sucesso no combate ao desmatamento exige uma articulação mais ampla entre diferentes frentes, incluindo fiscalização e mecanismos de rastreabilidade na produção.
A Importância do Plano Nacional de Rastreabilidade
Um dos exemplos citados por Rossi é o Plano Nacional de Rastreabilidade, frequentemente visto como uma ferramenta crucial para monitorar a origem da produção pecuária. Apesar de seu potencial, a implementação desse plano não está livre de desafios. “É um caminho, mas depende de muitos fatores, como a aplicação real no chão da fazenda e a adesão dos produtores”, explica.
Além disso, a jornalista ressalta a crescente consciência no agronegócio sobre a urgência de mudanças, impulsionada por questões econômicas ligadas às mudanças climáticas. “As mudanças climáticas estão levando embora safras inteiras”, observa, levantando a dúvida sobre se essa consciência será suficiente para reverter os danos ambientais já causados.
Investigação e Experiências Pessoais
Rossi compartilha um pouco de sua trajetória, que inclui sua passagem pela Repórter Brasil, onde começou a investigar a cadeia de produção de carne, e seus anos no El País Brasil, abordando temas relacionados ao meio ambiente e ao desmatamento. Ela relata como o convite para escrever um livro-reportagem a levou a aprofundar seus conhecimentos sobre a história da produção de carne no Brasil, desde sua origem até os conflitos fundiários que marcam a Amazônia atualmente.
“Consultando livros e conversando com especialistas, busquei trazer essa história de 500 anos para a atualidade”, conta. A jornada a levou ao sudeste do Pará, onde vivenciou em primeira mão os desafios enfrentados por aqueles que habitam a região.
A Força da ‘Bancada do Boi’
Durante a conversa, Rossi também abordou a questão da ‘bancada do boi’, um lobby poderoso que defende os interesses do agronegócio no Congresso. “É uma formação histórica, que participa do poder e da tomada de decisões”, explica. A jornalista critica a falta de organização da bancada ambientalista, que, segundo ela, é prejudicada pela força econômica das grandes indústrias.
“É fácil observar que o dinheiro está muito mais do lado das multinacionais e dos grandes frigoríficos do que de quem defende a floresta”, afirma, indicando que há uma falta de recursos e apoio para uma bancada ambientalista mais robusta.
O Papel da União Europeia
A discussão sobre o acordo Mercosul-UE também surge como um ponto importante na conversa. Rossi menciona que, enquanto a União Europeia impôs políticas rígidas de rastreabilidade para importações brasileiras, a eficácia dessas medidas pode ser limitada. “A União Europeia é apenas o nono maior comprador de carne brasileira”, esclarece. Além disso, a maior parte da carne produzida no Brasil é consumida internamente, o que levanta questões sobre a real eficácia das imposições externas.
Reflexões sobre o Futuro
Marina Rossi conclui com uma reflexão sobre a consciência ambiental entre os produtores. Embora haja indícios de uma mudança de mentalidade, ela alerta que pode ser tarde demais para evitar danos irreversíveis. “A pergunta é se a tomada de consciência será pela maior parte dos produtores e se já não será tarde demais”, pondera.
Em um ano eleitoral, a jornalista considera que a questão ambiental pode não ser vista como um tema decisivo, refletindo a associação da pauta com a esquerda e a falta de compreensão geral sobre as consequências das mudanças climáticas. A luta pela terra, segundo ela, também carece de atenção da mídia, que muitas vezes não dá a devida cobertura a essa problemática, deixando a questão da violência rural à margem do debate público.
Por fim, Rossi afirma que a solução para o desmatamento existe, mas requer um plano integrado e, acima de tudo, vontade política. “Tem muita gente boa debruçada sobre essa problemática e propondo soluções viáveis”, conclui.
