O Legado Duradouro do Impeachment
Há uma década, a votação que resultou no impeachment de Dilma Rousseff (PT) pela Câmara dos Deputados revelou de forma clara o que muitas vezes se vê apenas como um conceito abstrato: a polarização política no Brasil. Naquele dia, um muro feito de placas de metal foi erguido no gramado da Esplanada dos Ministérios, simbolizando a divisão entre os apoiadores do afastamento da presidente, vestidos de amarelo, e aqueles que a defendiam, ostentando camisetas vermelhas. Sem essa barreira, o que poderia ter acontecido é um mistério que ninguém deseja desvendar.
Desde então, o Brasil parece ter perdido a capacidade de encontrar um meio-termo, um dado que talvez seja o legado mais duradouro daquele episódio histórico. O impeachment de Dilma, de fato, foi o ponto culminante do surgimento da chamada “nova direita”, que, após décadas na incómoda posição de representada por partidos mais focados no antipetismo do que em um conservadorismo autêntico, finalmente se afirmou.
O Papel de Jair Bolsonaro
A destituição da presidente também plantou a semente que, dois anos depois, resultaria na ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, criando um movimento que se firmou sob seu sobrenome. Naquele momento, porém, o então deputado federal e capitão do Exército era apenas uma figura secundária no cenário político. Sua participação foi marcada pelo elogio a um coronel torturador no momento da votação e por ter sido alvo de uma cusparada do deputado Jean Wyllys.
É revelador que a edição da Folha de S.Paulo no dia seguinte ao impeachment tenha dedicado apenas duas linhas a Bolsonaro, descrevendo-o como um “polêmico deputado, ídolo da extrema direita”. A polarização, entretanto, não apenas entrou em cena, mas também transformou o vocabulário político, fazendo com que “golpe” adquirisse um novo significado, englobando até ações constitucionalmente discutíveis. Referir-se a Dilma como “presidenta” ou “presidente” tornou-se um indicador claro de posicionamento político.
A Influência das Redes Sociais
Embora as redes sociais ainda não tivessem a força que têm hoje, e nem a toxicidade que viriam a adquirir, já desempenhavam um papel significativo na dinâmica política. Elas ajudaram a popularizar apelidos como “Bessias”, que se fixou na memória coletiva em relação a Jorge Messias, atualmente indicado ao STF. O famoso “tchau, querida” de Lula para Dilma durante a votação, que há dez anos foi apenas um telefonema interceptado, hoje poderia ser comparado a um áudio enviado via WhatsApp.
O Papel de Michel Temer e o Centrão
Michel Temer, que assumiria a Presidência interinamente menos de um mês após a votação da Câmara, deixou sua marca na história política do Brasil com uma carta expressando seu lamento por ser um “vice decorativo”, além de sua preferência por expressões em latim e seu peculiar estilo de comunicação. A sua ascensão ao poder também marcou uma época de fortalecimento do centrão — um bloco de deputados notório por sua falta de ideologia, que se tornou a espinha dorsal do governo Temer.
Desde então, o poder do centrão só cresceu, impulsionado pelas emendas impositivas que restringem a ação do Executivo. O impeachment consolidou a reputação de Gilberto Kassab como um camaleão político, já que ele foi ministro de Dilma até pouco antes do afastamento e logo se alistou ao lado de Temer após sua posse.
O Impacto do Impeachment na Política Atual
Além disso, o processo de impeachment foi um dos últimos momentos de destaque para o PSDB, que forneceu quadros importantes ao governo Temer, incluindo a indicação do ministro das Relações Exteriores. Não menos relevante, a saga que culminou na destituição da primeira presidente mulher da história republicana ocorreu sob a sombra das denúncias da operação Lava Jato, que exerceram uma influência muito maior sobre o desfecho do impeachment do que os próprios argumentos oficiais sobre as pedaladas fiscais.
