Setor Agropecuário em Evidência
Em um contexto de juros altos, que atingiram a taxa básica de 15% ao ano, as dificuldades financeiras enfrentadas por empresas brasileiras resultaram em um número recorde de pedidos de recuperação judicial em 2025. Ao todo, 2.466 companhias recorreram à Justiça para renegociar dívidas e buscar reestruturação, marcando um aumento de 13% em relação ao ano anterior, conforme dados levantados pela Serasa Experian.
A pesquisa da datatech envolveu a coleta de informações sobre os pedidos de recuperação em todas as comarcas do país e revelou que, além do aumento geral, a quantidade de processos relacionados a grupos econômicos em dificuldades também atingiu o maior nível em uma década, totalizando 977 processos. O crescimento foi de 5,5% em relação ao ano anterior.
A economista-chefe da Serasa, Camila Abdelmalack, destaca que a análise dos CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) é alarmante. Contudo, ao considerar o número de processos, que muitas vezes envolvem múltiplas empresas de um mesmo grupo, a percepção sobre a gravidade da situação se torna mais equilibrada.
Desafios Econômicos e Comparativos Históricos
Embora o número de pedidos seja preocupante, Camila ressalta que a situação atual é diferente da registrada em 2016, quando o país enfrentava uma severa recessão econômica, acompanhada por altos índices de juros e inflação. Naquele ano, foram 1.011 processos de recuperação judicial, refletindo um ambiente macroeconômico que impactava diretamente a solvência das empresas.
Hoje, a desaceleração da atividade econômica é provocada pela alta taxa de juros, dificultando o acesso ao crédito e a rolagem das dívidas. Camila salienta que, embora o cenário atual seja desafiador, não se compara à gravidade de 2016, quando o PIB do país apresentava quedas consecutivas.
A Importância do Agronegócio
O setor agropecuário, em particular, se destacou no total de pedidos de recuperação judicial em 2025, respondendo por 30,1% do total com 743 solicitações. Esse percentual representa um aumento significativo de 3,8 pontos em comparação com o ano anterior. As empresas prestadoras de serviços também contribuíram, somando 739 pedidos e representando 30% do total.
O crescimento da participação do agronegócio nos pedidos de recuperação é notável, uma vez que, em 2012, esse setor correspondia a apenas 1,3% dos pedidos. Em contrapartida, outras áreas, como a indústria e o comércio, viram suas participações diminuírem significativamente ao longo dos anos.
A crescente relevância do agronegócio na economia brasileira é confirmada por um estudo do Itaú, que aponta o setor como responsável por 21% do PIB quando se consideram atividades como beneficiamento de safras e produção de insumos. Camila observa que os riscos inerentes ao setor, como variações climáticas e flutuações de preços, têm pressionado a saúde financeira das empresas, forçando-as a utilizar a recuperação judicial como um meio de renegociar dívidas.
Perspectivas Futuras e Desafios
Apesar do aumento no número de pedidos de recuperação no ano passado, a taxa de crescimento tem desacelerado desde 2023. Em 2023, o crescimento foi de 36%, seguido por 26% em 2024, e apenas 13% em 2025. Essa desaceleração é atribuída ao aumento no número de empresas ativas no país e às dificuldades econômicas.
O número de CNPJs negativados em janeiro deste ano alcançou 8,7 milhões, com uma dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de sete restrições por CNPJ. Rodrigo Gallegos, especialista em reestruturação de empresas, acredita que o ritmo de pedidos de recuperação judicial pode continuar a subir, especialmente à medida que a alta taxa de juros impacta a capacidade financeira das empresas.
Em meio a essas dificuldades, o cenário permanece complexo, e a importância de monitorar a saúde financeira das empresas é mais crucial do que nunca. O futuro se apresenta desafiador, e as empresas precisarão se adaptar a um ambiente em constante mudança.
