Educação avançada, mas mercado de trabalho frágil no Ceará
O Ceará figura entre os estados brasileiros com melhor desempenho em educação, mas enfrenta dificuldades para manter seus talentos em solo local. Levantamento do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), conduzido pelo pesquisador Leandro Rocha, aponta que, apesar dos avanços educacionais, o mercado de trabalho cearense não aproveita plenamente essa mão de obra qualificada.
O Estado destaca-se em 27 dos 32 indicadores educacionais avaliados pelo instituto, ocupando posições de destaque no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025. Nos anos iniciais, o Ceará alcançou a 2ª colocação nacional, a 3ª nos anos finais e a 8ª no ensino médio.
Descompasso entre educação e absorção no mercado de trabalho
Porém, a qualidade do ensino não tem sido suficiente para melhorar o mercado de trabalho local. Apenas 56,48% dos cearenses entre 18 e 64 anos estão empregados com rendimento no domicílio, posicionando o Estado em 24º lugar no país. Além disso, 50,96% da força de trabalho está na informalidade, uma das piores taxas nacionais.
Esse cenário reflete diretamente nos rendimentos. A renda média domiciliar do trabalho no Estado é de R$ 2,26 mil, ocupando a 25ª posição no ranking nacional, e cai para R$ 1,72 mil entre os jovens de 18 a 29 anos (24ª colocação). Entre esses jovens trabalhadores, 66,76% recebem até um salário mínimo.
Pobreza e vulnerabilidade econômica ainda marcam o Ceará
Os baixos rendimentos impactam os indicadores sociais. Cerca de 27,88% da população do Ceará vive em situação de pobreza ou extrema pobreza, totalizando aproximadamente 2,58 milhões de pessoas. Entre crianças e adolescentes, esses índices são ainda mais alarmantes: 36,5% vivem na pobreza e 9,8% na extrema pobreza.
O “hiato médio da renda”, indicador que mede o valor necessário para tirar as pessoas da vulnerabilidade econômica, posiciona o Ceará em 5º lugar no país. Para a extrema pobreza, o valor necessário é de R$ 90,57, e para a pobreza, R$ 175,73.
Fuga de talentos e desafios para o mercado local
O pesquisador Leandro Rocha avalia que o Ceará ainda carrega um passivo histórico de pobreza, que se reflete em seus indicadores sociais e econômicos. A falta de oportunidades competitivas no mercado de trabalho leva os profissionais mais qualificados a buscarem emprego em outros estados, especialmente São Paulo, que abriga mais de um terço dos cearenses que migraram segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Essa evasão prejudica a competitividade do mercado local e evidencia a necessidade de uma melhor articulação entre a formação educacional e o setor produtivo do Estado, para reter talentos e aproveitar o potencial local.
Indicadores econômicos e empresariais do Ceará
O ambiente de negócios no Ceará mostra dados mistos para 2025. A taxa líquida de abertura de empresas por 100 mil habitantes está em 678,80, ocupando a 16ª posição nacional, enquanto a taxa de inadimplência para pessoas jurídicas é de 3,28%, em 13º lugar. O tempo médio para abrir uma empresa é de 17,81 horas, uma posição intermediária no ranking.
Na economia, o PIB per capita em 2023 foi de R$ 10,76 mil (24º lugar), e a renda domiciliar per capita estimada para 2025 é de R$ 1,38 mil (25º lugar). A participação dos setores em 2021 mostra a predominância dos serviços, com 50,28%, seguida pela indústria (20,49%) e agropecuária (6,23%).
Perspectivas e desafios para o futuro do Ceará
O estudo do IMDS reforça que a aposta na educação é um caminho sólido para o Ceará se destacar em ciclos futuros. No entanto, o desafio está em transformar a formação de qualidade em oportunidades reais de emprego e melhores condições econômicas para a população. Sem essa integração, o Estado corre o risco de continuar perdendo profissionais qualificados e de manter índices preocupantes de pobreza e informalidade.
Para isso, o Ceará precisa fortalecer a conexão entre o sistema educacional e o mercado de trabalho, criando políticas e incentivos que permitam a retenção dos talentos e o desenvolvimento econômico sustentável.
