O Impacto do Acordo no Agronegócio
Após mais de 25 anos de negociações, o aguardado acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul finalmente se torna realidade. A partir de maio de 2024, o tratado terá vigor provisório e, além de trazer consequências diretas para a economia brasileira, promete aquecer a demanda por crédito no agronegócio. Essa movimentação deverá elevar a emissão de títulos no mercado de capitais e modificar as dinâmicas de operação no setor.
Embora o acordo ainda precise passar pela apreciação do Senado Europeu, sua implementação temporária já está prevista. Especialistas acreditam que o novo cenário deve aumentar significativamente a emissão de títulos de crédito, com foco em impulsionar a produção agrícola e alterar a forma como os produtores lidam com informações, garantindo uma maior ênfase em critérios ESG (ambientais, sociais e de governança).
Exigências que Transformam a Cadeia Produtiva
Marina Costa, especialista comercial e de relacionamento da Vórtx, destaca que o acordo impõe rigorosos pré-requisitos fitossanitários e de rastreabilidade dos produtos. “Essa realidade demanda investimentos em tecnologia e compliance, o que, por sua vez, requer recursos financeiros. Acredito que veremos operações estruturadas voltadas para esses investimentos”, salienta.
Para acessar o promissor mercado externo, os produtores precisarão adaptar suas estruturas e realizar mudanças significativas nos manejos agrícolas, o que requer capital. “Estamos diante de uma busca intensa por acesso a crédito a curto prazo, enquanto, no médio e longo prazos, devemos observar operações que utilizem contratos de exportação como garantias”, completa Marina.
A Justa Preparação das Empresas
Apesar das expectativas otimistas, a transição não será imediata. A adaptação da cadeia produtiva exigirá tempo e esforço. Grandes empresas e emissoras mais consolidadas no mercado estão melhor posicionadas para essa transição. No contexto da demanda por crédito, instrumentos financeiros como Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Cédulas de Produto Rural (CPRs) surgem como opções viáveis.
“Produtores de maior porte já têm se beneficiado dessas alternativas financeiras, especialmente em operações de exportação. O acordo também impõe a necessidade de harmonização das exigências ambientais entre a União Europeia e o Brasil”, explica Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Corecon-SP.
Ele observa que as CPRs, em particular, são flexíveis o suficiente para incluir cláusulas ligadas a critérios de sustentabilidade, o que já é uma realidade no mercado. Essa adaptação será fundamental para facilitar a exportação de produtos agrícolas brasileiros.
Desafios para Pequenos e Médios Produtores
Luiz Carlos Corrêa, head de alocação e sócio da Nexgen Capital, adverte que a oferta de crédito pode não ocorrer rapidamente, dada a situação atual do setor. Contudo, ele acredita que o acordo UE-Mercosul trará benefícios significativos, principalmente para setores com alto potencial de crescimento, como os de proteína e sucroenergético. “Títulos como as CPRs com garantias reais podem se tornar mais atraentes, à medida que investidores buscam estruturas seguras”, diz.
Além de aumentar a oferta de financiamento ao agronegócio por meio do mercado de capitais brasileiro, o acordo promete estreitar as relações entre a UE e o Mercosul, favorecendo novos investimentos. “No futuro, visualizamos a inserção de CRAs, FIAGROS e operações estruturadas de crédito com apetite europeu, seja por investidores individuais ou por fundos. A criação do bloco favorece a realização de mais negócios”, acredita Antônio da Luz, economista-chefe da EcoAgro.
A Necessidade de Conformidade e Transparência
À medida que o Brasil se adapta às exigências europeias, o país deve evoluir em termos de compliance e suas relações sob a perspectiva ESG. “Seremos obrigados a mostrar a um público exigente que estamos agindo de maneira transparente e correta, entregando benefícios em termos de taxas e ambientais”, declara Luz.
O ESG deve deixar de ser um diferencial e se tornar um pré-requisito. Questões como a regularidade do cadastro ambiental e a ausência de processos administrativos relacionados a desmatamento serão cada vez mais exigidas. Monitoramento de gado via satélite e rastreamento individual de animais são exemplos de práticas que se tornarão comuns nas operações.
Entretanto, o middle market, que inclui pequenos e médios produtores, pode enfrentar dificuldades para se adaptar a essas exigências. Isso levanta preocupações sobre como esses agricultores poderão se beneficiar do acordo e da nova estrutura financeira do agronegócio.
