A Mudança no Perfil Habitacional no Espírito Santo
O acesso à casa própria está passando por uma transformação significativa no Espírito Santo, com um aumento notável no número de famílias vivendo de aluguel. Essa mudança é evidenciada por dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam uma tendência preocupante no mercado imobiliário local.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), o percentual de residências próprias que já foram pagas despencou de 71,2% em 2016 para apenas 61,7% em 2025. Em contrapartida, a quantidade de imóveis alugados subiu consideravelmente durante o mesmo período, saltando de 16,5% para 23,7%.
Na Grande Vitória, essa tendência é ainda mais acentuada, com o índice de residências alugadas alcançando 28,1% em 2025; na capital, o número chega a alarmantes 31,9%, evidenciando uma real mudança no acesso à moradia no Estado.
Reflexos na Vida Cotidiana dos Capixabas
Esses dados refletem a realidade de muitas pessoas que ainda não conseguem se desvincular do aluguel. Vanessa Dias dos Santos, de 24 anos e radialista, é um exemplo claro dessa situação. Em entrevista ao Folha Vitória, ela compartilhou sua experiência.
“Hoje moro em Ponta da Fruta, em Vila Velha, de aluguel com a minha mãe. Nós viemos da Bahia, onde já tínhamos uma casa, mas aqui ainda não conseguimos comprar um imóvel”, revelou Vanessa. Apesar de já ter iniciado um financiamento, a insegurança e a frustração ainda existem. “O aluguel é bom, mas o que a gente paga não é nosso – é apenas um lugar temporário. Nosso sonho é ter uma casa no Espírito Santo”, completou.
Fatores Econômicos em Jogo
De acordo com Luiz Henrique Stanger, especialista em mercado imobiliário, essa mudança no comportamento habitacional das famílias está diretamente ligada a diversos fatores econômicos. A alta das taxas de juros vem encarecendo o financiamento imobiliário, tornando a compra de casas cada vez mais difícil.
“Algumas famílias fazem as contas e percebem que a parcela do financiamento está muito distante do valor do aluguel. Isso acaba dificultando a decisão de compra”, explica Stanger. A restrição ao crédito é outro fator que tem afetado principalmente a classe média. “O tripé do mercado imobiliário é crédito, renda e emprego. Hoje, o crédito está mais limitado devido aos juros elevados”, destaca.
Com um número crescente de pessoas sem condições para adquirir um imóvel, a demanda por aluguel se intensifica, o que pressiona ainda mais os preços. “Quanto mais pessoas procurando, maior a pressão. É a lei do mercado funcionando”, afirma o especialista.
A Oferta de Imóveis e a Demanda do Mercado
Outro ponto que merece destaque é a baixa oferta de imóveis destinados exclusivamente para aluguel. Muitos proprietários não enxergaram essa possibilidade como um investimento, mas sim como uma forma de complementar a renda. Essa falta de opções apropriadas para locação colabora para a pressão nos preços.
Além disso, a demanda por imóveis não é apenas uma questão econômica, mas também reflete a qualidade de vida que Vitória oferece. “A demanda continua alta, seja pela falta de opções, seja pelo fato de Vitória ser uma capital atrativa, com um ambiente de negócios vibrante e boa qualidade de vida”, conclui Stanger.
Dados Relevantes sobre o Domicílio no Espírito Santo
Outro aspecto interessante trazido pela PNAD Contínua é a porcentagem de domicílios com apenas um morador no Espírito Santo, que atinge 21,3%. Esse índice coloca o Estado na quarta posição do Brasil, atrás apenas de Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul.
O arranjo domiciliar mais comum é o nuclear, com a predominância de núcleos familiares compostos por casais com ou sem filhos, além das chamadas famílias monoparentais, formadas por mães ou pais com filhos. Em 2025, esses arranjos representaram 66,5% do total, mostrando uma leve diminuição em relação a 2012.
