O Papel da Ópera na Sociedade Contemporânea
Em uma reflexão sobre a interseção entre a ópera e as civilizações, Fortunato Ortombina, o novo diretor-geral do Teatro Scala de Milão, compartilha suas impressões e experiências. Com um histórico que inclui um mandato no Teatro La Fenice, em Veneza, Ortombina destaca a força da ópera como uma linguagem que transcende barreiras culturais. Ele revela que, durante uma de suas pesquisas, chegou a considerar uma conexão entre o icônico zagueiro Hilderaldo Bellini, capitão da seleção brasileira de 1958, e o compositor Vincenzo Bellini, apenas para descobrir que as relações familiares eram mais complexas, originando-se do Vêneto.
Assumindo a direção do Scala, Ortombina se torna o primeiro italiano a ocupar o cargo em uma década, sucedendo uma série de diretores estrangeiros. O Scala, um dos mais prestigiados teatros líricos do mundo, é gerido por um conselho que inclui o prefeito de Milão, representantes do Ministério da Cultura e patrocinadores, refletindo seu status central na vida cultural e política da cidade. A abertura da temporada no Scala é considerada um evento de Estado, marcando a importância vital da casa na agenda cultural de Milão, que também abriga eventos anuais de moda e celebrações significativas, como o aniversário do renomado jornal “Corriere della Sera”.
Desafios e Inovações no Mundo da Ópera
Com um mandato se estendendo até 2030, Ortombina enfrenta o desafio de manter uma programação vibrante e relevante. Ele herdou de seu predecessor um ciclo impressionante de quatro óperas de Wagner, “O Anel do Nibelungo”, que contou com a regência da notável Simone Young. A produção se destacou não só pela excelência musical, com performances extraordinárias de cantores como Camila Nylund e Klaus-Florian Vogt, mas também pela direção artística que, em alguns aspectos, gerou controvérsia. Ortombina se prepara para novas temporadas, já anunciando “Otello” e “Um Baile de Máscaras”, ambos de Verdi, trazendo novos talentos e visões criativas ao palco.
Mas como um maestro pode garantir que o teatro tenha uma conexão real com a cidade? Para Ortombina, a resposta é clara: nunca desistir. Ele enfatiza a importância de um diálogo constante com a comunidade. Sua própria história no Scala, onde trabalhou anteriormente como diretor artístico, contribui para seu entendimento profundo do contexto cultural milanês. Para ele, a ópera não é apenas uma forma de arte, mas uma parte viva da cidade e de sua identidade.
A Ópera no Século XXI: Atualizações e Experiências
Ortombina reflete sobre a relevância da ópera nos dias de hoje, considerando-a uma das linguagens mais universais. Ele menciona que, provavelmente, ainda não existe uma pessoa que não tenha escutado uma nota de Puccini, mesmo em locais remotos. Segundo ele, a ópera se tornou a base para muitas narrativas contemporâneas, influenciando o cinema e a televisão. As obras de Verdi e Puccini, assim como a de Carlos Gomes, permanecem atemporais, com a capacidade de revelar novas interpretações e emoções ao longo dos séculos.
Sobre as mudanças na experiência do espectador, Ortombina acredita que, apesar das tendências de consumo rápido e das redes sociais, a experiência ao vivo continua a ser valorizada. Ele observa que o Scala tem atraído um público crescente, que busca não apenas entretenimento, mas a qualidade singular de uma apresentação ao vivo. A conexão emocional que surge entre os artistas e a audiência é, para ele, insubstituível.
Futuro da Ópera: Novas Obras e Colaborações
A criação de novas obras é um tema central nas discussões de Ortombina. Ele menciona a recente produção de “O Nome da Rosa”, baseada na obra de Umberto Eco, como um exemplo do potencial de atrair novos públicos. A peça teve sucesso, esgotando os ingressos, evidenciando o desejo do público por experiências que conectem literatura e música. Com um público jovem curioso e engajado, Ortombina vê otimismo no futuro da ópera, mesmo em tempos de mudança.
Em relação ao Brasil, Ortombina reconhece a importância de compositores como Carlos Gomes, destacando a rica história cultural que poderia ser mais explorada no Scala. Ele sugere que a conexão entre Brasil e Itália, frequentemente vista como distante, pode proporcionar novas oportunidades de colaboração e descoberta. Ao mesmo tempo, ressalta a necessidade de compreender as nuances culturais para criar produções que ressoem com o público.
Riscos e Desafios no Teatro Contemporâneo
Por fim, ao contemplar o risco artístico em um mundo polarizado, Ortombina afirma que é fundamental saber o que se está arriscando. Ele observa que, independentemente das dificuldades, a música sempre prevalece como uma força poderosa e unificadora. A experiência acumulada em teatros históricos como o Scala lhe proporciona uma perspectiva única sobre como a arte pode ajudar a conectar as pessoas, mesmo em tempos desafiadores.
