A Guerra no Irã e os Efeitos no Agronegócio
O conflito em curso entre Estados Unidos e Israel e o Irã está reverberando em várias esferas da economia global, especialmente no setor agrícola. A insegurança gerada por essa guerra tem provocado um aumento nos preços de commodities essenciais, como os fertilizantes, fundamentais para a produção de alimentos no mundo inteiro.
Após a disparada nos preços do petróleo, que se aproximou da marca de 100 dólares por barril, o foco agora recai sobre os fertilizantes, cuja produção é amplamente concentrada em países do Golfo Pérsico. A situação se agrava com o fechamento do Estreito de Ormuz, uma importante rota de transporte para esses insumos.
Os fertilizantes nitrogenados, com destaque para a ureia, são particularmente sensíveis a essa crise. De acordo com a Bloomberg Intelligence, cerca de 50% da ureia comercializada globalmente provém dessa região. O Brasil, principal produtor agrícola da América Latina, é altamente dependente dessas importações, absorvendo cerca de 85% de seus fertilizantes do exterior, conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Aumento nos Preços de Fertilizantes
No contexto atual, todos os olhos estão voltados para os preços da ureia, que sofreram um aumento significativo. Na semana passada, o valor do insumo subiu 37% no Egito, um importante referencial para o mercado internacional, com a tonelada saltando de 485 dólares para 665 dólares. Embora este valor ainda seja inferior ao pico de mil dólares registrado após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a alta já levanta preocupações, especialmente entre os agricultores do Hemisfério Norte, que estão prestes a iniciar o plantio.
Com a ureia sendo um insumo vital para culturas como milho, trigo e arroz, a alta nos preços pode forçar os agricultores a optarem por culturas menos dependentes de fertilizantes, o que, por sua vez, poderá comprometer a produção agrícola. Joseph Glauber, pesquisador sênior do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares (IFPRI), alerta que essa mudança pode afetar diretamente a oferta de alimentos.
Impactos no Brasil e Estratégias para o Futuro
O banco holandês ING enfatiza que um bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz pode impactar significativamente a disponibilidade de fertilizantes para países dependentes, como Brasil, Índia e nações europeias. Isso ocorre em um momento em que outros grandes produtores de fertilizantes, como Rússia, China e Estados Unidos, enfrentam limitações em sua capacidade de aumentar a produção para compensar a falta.
Enquanto o impacto inicial atinge os países do Hemisfério Norte, no Brasil a situação ainda está se desenrolando. Segundo o analista Tomás Pernías, da StoneX, o país tende a comprar mais fertilizantes no final do ano, antes do plantio de milho. Porém, a previsibilidade é baixa e o cenário geopolítico pode dificultar essa dinâmica.
Mauro Osaki, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), destaca que, apesar da incerteza em relação aos fertilizantes, a safra de segunda safra já está quase finalizada e muitos agricultores já adquiriram seus insumos. No entanto, para o planejamento das próximas safras, especialmente 2026/2027, a preocupação com a disponibilidade de fertilizantes aumentará.
Setores Atingidos e a Resiliência do Agronegócio
As culturas de trigo e cevada estão entre as mais vulneráveis, com alguns produtores já enfrentando rentabilidade negativa. A dificuldade em obter fertilizantes nitrogenados pode impactar também o cultivo de arroz e feijão, que já estão vendo uma diminuição na demanda devido a mudanças nos hábitos alimentares dos brasileiros.
No cenário das exportações, a recente alta nos preços do petróleo também começa a afetar o segmento de soja. O preço do diesel em São Paulo subiu 8,4% em uma semana, tornando o frete mais caro e, consequentemente, reduzindo as margens de lucro dos agricultores.
Por outro lado, o conflito no Oriente Médio poderá redirecionar compradores de soja para o Brasil, uma vez que o país responde por 61% da demanda global nessa época do ano, o que pode ser uma oportunidade em meio à crise.
Desafios para a Indústria da Proteína Animal
No setor de proteína animal, a situação é igualmente preocupante. Aproximadamente 25% das exportações de carne de frango do Brasil foram destinadas ao Oriente Médio em 2025, mas a guerra e o fechamento do Estreito de Ormuz podem prejudicar novos embarques para essa região. Os produtores já contemplam redirecionar suas vendas para outros mercados, embora essa transição traga desafios logísticos e legais.
Em resumo, a guerra no Irã está criando uma teia complexa de desafios para o agronegócio brasileiro. A necessidade de adaptação e planejamento estratégico será essencial para mitigar os impactos da crise e assegurar a continuidade da produção e exportação de alimentos essenciais.
