A Redescoberta da Escultura de Hermes
Uma escultura de mármore do deus grego Hermes, considerada desaparecida há 47 anos, foi encontrada no quintal de uma casa em Vila Velha. A peça, que será retirada para retornar ao seu local original, a Praça Cecília Monteiro, anexa ao Palácio Anchieta, em Vitória, já havia se tornado uma lenda perdida na memória da cidade.
A busca pela escultura teve início a partir de uma investigação do professor e historiador Raphael Teixeira, em parceria com pesquisadores do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (Leena) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O interesse foi despertado após a leitura de uma reportagem que mencionava o monumento desaparecido na região central de Vitória.
“Ele leu uma matéria de 2018 que falava sobre um busto perdido na Praça Cecília Monteiro e perguntou se seria possível fazer uma réplica. Eu mencionei que sim, mas precisaríamos de imagens para entender como era a peça”, relatou José Cirillo, professor de escultura e parte da equipe de pesquisa da Ufes.
Infelizmente, não havia fotografias ou registros disponíveis da escultura, levando os pesquisadores a explorarem arquivos públicos e literatura sobre monumentos da capital. Sem sucesso, a equipe decidiu então utilizar as redes sociais para buscar mais informações.
Foi nesse momento que uma pista surpreendente apareceu. “Um artista que havia estudado no Centro de Artes na década de 70 me enviou uma mensagem dizendo que a peça não estava perdida, mas sim em seu antigo ateliê”, contou Cirillo, ressaltando a virada inesperada na história da escultura.
Os Danos da Tempestade
Conforme as informações trazidas pelo artista, a escultura foi levada para seu ateliê em 1979, após um incidente que ocorreu durante uma obra de restauração na Escola Maria Ortiz. Um galho de árvore caiu sobre a estátua durante uma tempestade, resultando em sua remoção do local para reparos.
“Enquanto ele trabalhava na escola, uma tempestade derrubou um galho de flamboyant sobre a estátua que estava exposta na frente do prédio. O encarregado da obra pediu que ele levasse a peça para restaurá-la. Mesmo sem uma autorização formal, os pedaços foram carregados em um caminhão e levados para o ateliê em Vila Velha”, explicou Cirillo.
Com o passar dos anos, a escultura acabou sendo esquecida no imóvel, que deixou de funcionar como ateliê e passou a ser alugado para outras pessoas. “As gestões da Secretaria de Cultura mudaram ao longo do tempo, e a memória sobre essa estrutura se perdeu, resultando no abandono da peça no ateliê. Se não fosse pela pesquisa e o contato pelas redes sociais, essa obra ainda seria considerada perdida”, enfatizou o professor.
Durante uma visita ao local, os pesquisadores fizeram outra descoberta intrigante: a peça não era um busto, como inicialmente se imaginava, mas uma escultura de corpo inteiro. “Fomos em busca de um suposto busto e encontramos uma escultura completa. Ela faz parte de um conjunto de mármores de 1912 que foram adquiridos na Europa e instalados na escadaria do Palácio Anchieta”, disse Cirillo.
Valor Histórico e Artístico da Escultura
A peça, segundo o professor, possui um alto valor histórico e artístico. Ela faz parte de um conjunto que inclui figuras femininas e elementos decorativos ao longo da escadaria do palácio. A escultura, no entanto, apresenta danos resultantes do acidente ocorrido décadas atrás, como a falta dos dois braços, partes do nariz, do elmo e de um dos pés.
Com os planos de retornar a escultura ao seu pedestal original na Praça Cecília Monteiro, que está passando por revitalização, a redescoberta da obra mostra a relevância da pesquisa acadêmica e da colaboração entre diferentes entidades. “O aspecto mais interessante é que a pesquisa acadêmica e a interação entre as pessoas possibilitaram o resgate dessa peça. Conseguimos não apenas a fotografia para a realização de uma cópia, mas também encontramos a própria escultura, perdida há quase 50 anos”, concluiu Cirillo.
