A Batalha por Território e Direitos Indígenas
No início de 2023, uma decisão judicial polêmica autorizou a mineradora Vale a operar permanentemente dentro do território indígena de Aracruz, no Espírito Santo. Essa autorização inclui monitoramento, seja presencial ou eletrônico, no processo de reintegração de posse do território. A medida intensifica a disputa entre os povos indígenas e a empresa, que já foi alvo de inúmeras críticas por suas práticas destrutivas. Além disso, bloqueios de estrada feitos pelos indígenas refletem a resistência à essa decisão judicial.
A vigilância autorizada pelo Estado se estende pela ferrovia federal Vitória à Minas, que atravessa as terras dos Tupiniquim e Guarani. Um membro da comunidade indígena, que preferiu não se identificar, revelou ao Século Diário que a presença de drones e viaturas se tornou uma rotina alarmante: “Eles vinham diariamente, duas vezes ao dia. O drone sobrevoa o acampamento inteiro. Não sabemos o propósito dos registros; provavelmente é para identificar as pessoas”.
Denúncias de Crimes Ambientais e Intimidação
Desde o dia 22 de outubro de 2025, os Tupiniquim bloquearam um trecho da rodovia como forma de protesto contra os impactos ambientais e sociais causados pelas atividades da Vale, Samarco e BHP. Este protesto é um marco de dez anos de contaminação que afetou a vida dos povos indígenas. Segundo eles, a região abriga mais de 30 focos de exploração que resultam em graves violações e mortes que não aparecem nas estatísticas oficiais.
Os Tupiniquim também expressam descontentamento com o silêncio do Estado, que permitiu a ação judicial que institui a vigilância e a criminalização de sua luta. Em uma nota, o Coletivo Jovens Tupinikim ressaltou que a decisão judicial não é isolada: “É fruto da ineficiência e conivência do Ministério dos Povos Indígenas e outros órgãos responsáveis, que falharam em proteger direitos garantidos pela Constituição”.
Impunidade e Repressão à Luta Indígena
Os jovens indígenas afirmam que enquanto empresas responsáveis por crimes socioambientais permanecem impunes, o Estado opta por reprimir aqueles que buscam justiça e reparação. “O silêncio institucional e a falta de ação concreta também são formas de violência. Nossa luta não é crime. Crime é destruir territórios, contaminar rios e negar reparação”, concluem, reafirmando sua determinação.
Adicionalmente, os Tupiniquim criticam a maneira como a cobertura da mídia tem tratado a situação, focando apenas nos prejuízos financeiros da Vale, sem abordar o impacto devastador sobre a vida e o trabalho dos povos indígenas. Eles denunciam a desinformação propagada por grandes veículos de comunicação e alertam sobre a interpretação equivocada de sua luta como uma ameaça à ordem pública. “Não aceitaremos que a Vale atue como fiscal, vigia ou autoridade dentro do nosso território”, afirmam.
Impactos da Tragédia de Mariana
A luta dos Tupiniquim também é marcada pelo desastre ambiental causado pelo rompimento da Barragem de Mariana, que ocorreu em 5 de novembro de 2015. Os rejeitos se espalharam pelo território indígena, contaminando rios e áreas essenciais para a sobrevivência da comunidade. Apesar de mais de 6 mil indígenas afetados, apenas 1.350 foram indenizados. A ausência de um Estudo do Componente Indígena (ECI) para avaliar os danos causados é uma preocupação adicional.
A resistência dos Tupiniquim em Aracruz já é histórica, com a primeira rebelião registrada em 1998. No dia 21 de janeiro, a mobilização completou 91 dias e os indígenas denunciaram a presença da polícia federal em suas terras sem autorização judicial, afirmando que a ação era desnecessária, já que não estavam obstruindo a linha férrea. Eles reafirmam seu compromisso em continuar a luta pela defesa de seus direitos: “Por mais que tentem nos criminalizar, lutar não é crime!”.
