A Música como Ferramenta de Cura em Grupos de Apoio
No coração da zona oeste de São Paulo, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) estão promovendo uma iniciativa inovadora para ajudar aqueles que enfrentam a dor da perda. O jovem Wellington Barreto dos Santos, de 25 anos, é um dos participantes do grupo de terapia coordenado pela psicóloga Pamella Becegati, de 31 anos, na UBS Jardim Colombo. Durante uma das sessões, Wellington escolheu a canção “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes, como forma de expressar seu desejo de reencontrar a felicidade.
A proposta de Pamella envolve o uso de músicas como um meio de explorar sentimentos e reviver memórias. “Qual foi o primeiro pensamento que você teve ao ouvir a canção? Que experiências ela traz à sua mente?” questiona a psicóloga, levando os participantes a refletirem sobre suas vivências.
A dor de Wellington é profunda. Ele perdeu duas tias e um amigo, o que desencadeou uma crise de ansiedade significativa. “Uma das tias eu perdi há cinco anos. Nossa relação era muito próxima, e sonhávamos em viajar juntos. Levo uma foto dela em todas as minhas viagens”, compartilha, visivelmente emocionado. “A outra tia eu a vi morta em casa. Foi como se arrancassem um pedaço do meu coração. Meu amigo, que tinha uma vida cheia de sonhos, morreu em um acidente”.
Wellington revela que passou muito tempo guardando sua dor em segredo, sem compartilhar com seus pais. “Aqui no grupo, encontrei um espaço seguro e acolhedor. Aprendi a reviver as memórias sem o medo constante das crises de ansiedade”, como ele mesmo relata.
O Impacto do Luto na Saúde Mental
O luto não é apenas uma série de reações emocionais; é um processo que pode afetar gravemente a vida cotidiana dos enlutados. Em 2022, o Ministério da Saúde reconheceu o luto prolongado como um transtorno mental, enfatizando a necessidade de apoio psicológico. A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo oferece acolhimento na UBS para aqueles que atravessam essa fase, com encontros individuais ou em grupos.
Na UBS Jardim Colombo, os participantes têm acesso a uma equipe multiprofissional, que inclui assistentes sociais que auxiliam nas dinâmicas e nos encaminhamentos necessários para a rede pública de saúde. Massumi Hirota Tunkus, de 65 anos, compartilha sua trajetória dolorosa, revelando que não havia conseguido lidar com a morte do marido há 18 anos. “Eu estava tão focada em cuidar dos meus filhos e da minha mãe que não consegui viver o meu luto”, diz, acrescentando que encontrou no grupo um novo sentido de pertencimento.
Outra participante, Solange Maria de Assunção Modesto, de 61 anos, conta sobre a perda da irmã, que faleceu após um transplante de medula óssea. “Ainda estou sem chão. Fazíamos tudo juntas, e é como se uma parte de mim tivesse ido embora. As rodas de conversa no grupo me ajudam muito”, reflete.
Dinamismo e Reflexão nas Sessões
Durante uma das sessões, os participantes seguravam pinhas de eucalipto e foram convidados a refletir sobre suas próprias emoções. “A missão é olhar para dentro das pinhas e se perguntar o que gostariam de mudar em suas vidas”, explica Pamella. Essa atividade não só promove a reflexão, mas também ajuda a criar um ambiente de apoio mútuo.
Maria Neuza Ferreira da Silva, de 71 anos, vivenciou um momento de transformação após a morte do marido, que a levou a uma depressão profunda. “Minha mãe ficou debilitada após perder meu padrasto, e nós a apoiávamos o tempo inteiro. Depois de três meses de terapia, ela começou a se reerguer”, conta Leirilene, filha de Maria Neuza, com esperança renovada.
Os encontros, que acontecem às segundas-feiras, são um espaço vital para os participantes. Pamella utiliza diversas dinâmicas, como girassóis, músicas e cartas, para facilitar a expressão emocional. “Eu também gosto de usar diários como uma forma de expressão”, revela a psicóloga. “Os participantes escrevem o que gostariam de ter dito para quem se foi, e isso pode ser um grande alívio para a dor que sentem”.
