O Impacto das Tarifas no Agronegócio dos EUA
As tarifas comerciais estabelecidas pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, têm gerado reações variadas entre os segmentos do agronegócio norte-americano. Produtores de soja enfrentam um cenário preocupante, com custos elevados e perda de mercados fora do país, enquanto criadores de camarão veem nas novas barreiras uma chance para se protegerem da concorrência internacional, especialmente vinda da Ásia.
“Estamos preocupados com a seca, os preços, o maquinário e o financiamento. Agora, essa tarifa é mais uma preocupação para nós”, declarou Todd Western, um produtor de soja de sexta geração localizado em Waterloo, Iowa. Ele comenta que as tensões comerciais entre os EUA e a China intensificam a incerteza no setor agrícola.
China e a Importância das Exportações de Soja
A China é o maior comprador de soja do mundo e, até o momento, não realizou quaisquer pré-compras relacionadas à próxima safra americana, algo bastante comum nessa época do ano. Estatísticas mostram que o país representa cerca de 61% do total de soja comercializada globalmente, contribuindo com mais de 20% das exportações dos Estados Unidos. “Neste período do ano, a China normalmente já estaria comprando para entrega no outono. No entanto, até agora não houve movimentação”, explica Western.
Além do risco de uma queda nas exportações, os agricultores ainda têm que lidar com o aumento dos custos operacionais. As tarifas impactam negativamente os preços de insumos essenciais, como fertilizantes, aço e maquinário agrícola. Por exemplo, a fabricante John Deere reportou uma diminuição nas vendas durante o terceiro trimestre e projeta um impacto de aproximadamente US$ 600 milhões no ano, decorrente das tarifas sobre aço e alumínio.
“Se nossos fornecedores de fertilizantes forem severamente afetados pelas tarifas elevadas, sentiremos o impacto diretamente”, alerta o produtor.
Camarões como Exemplo de Oportunidade no Setor
No extremo oposto do país, a resposta dos criadores de camarão é bastante otimista. Em Indiana, eles consideram as tarifas como uma proteção frente à forte concorrência do exterior. “As tarifas são incríveis! Fiquei animada assim que soubemos que elas entrariam em vigor”, declarou Caroline, produtora local.
Atualmente, mais de 90% do camarão consumido nos Estados Unidos é importado, vindo principalmente de países como Índia, China, Tailândia e Vietnã. O volume anual chega a 700 milhões de quilos, movimentando mais de US$ 6 bilhões. Com tarifas que chegam a 50% sobre o camarão indiano, os produtores norte-americanos vislumbram uma recuperação em sua competitividade.
“Eles não conseguem competir com um produto que custa 7 dólares o quilo”, conta Caroline, ressaltando um crescimento recente nas vendas. “Nos últimos três meses, vendemos quase 300 quilos. Minha estrutura só comporta 250 quilos.”
Desafios Persistentes no Setor Agrícola
Os Estados Unidos possuem cerca de 1,9 milhão de fazendas, cujo trabalho é crucial para manter a produção acima do consumo interno, tornando-se dependentes das exportações. Em 2024, as exportações agrícolas do país somaram US$ 176 bilhões, após um crescimento contínuo por 25 anos.
Entretanto, o cenário permanece desafiador. Somente no ano passado, mais de 200 fazendas entraram em processo de falência, representando um aumento de 55% em relação ao ano anterior, pressionadas por preços mais baixos, custos altos e incertezas no comércio internacional.
O Futuro do Agronegócio Americano
Embora o governo Trump tenha aprovado, em julho, um pacote legislativo que amplia os incentivos agrícolas em cerca de US$ 65 bilhões para a próxima década — sendo US$ 59 bilhões direcionados a seguros e assistência contra desastres —, os produtores mantêm um olhar cauteloso. “Não conseguiremos absorver toda a nossa produção todos os anos. Permaneceremos bastante dependentes dos mercados internacionais”, afirma Western. Ele alerta que, sem acordos comerciais eficazes, as consequências serão inevitáveis. “O agricultor americano não sairá beneficiado disso. Precisamos de soluções urgentes.”
