Causas do Aumento do Tabagismo na Amazônia
O tabagismo se revela um problema crescente na Amazônia Legal, onde questões culturais e a carência de acesso à informação em saúde contribuem para que a incidência de fumantes entre comunidades tradicionais supere a média regional. Um estudo recente revelou que enquanto 12% desses grupos se identificam como fumantes, o percentual entre o restante da população local é de apenas 6%.
Os dados foram coletados pela pesquisa ‘Mais Dados, Mais Saúde’, uma iniciativa das organizações Vital Strategies e Umane, com o suporte do Instituto Devive. Para essa pesquisa, foram realizadas 4.037 entrevistas em todos os estados que compõem a Amazônia Legal, entre maio e julho de 2023.
As comunidades tradicionais, que englobam indígenas, seringueiros, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, enfrentam uma realidade marcada pela falta de acesso aos serviços de saúde. Segundo o Censo do IBGE, a região abriga aproximadamente 867.919 indígenas e 427.801 quilombolas, refletindo a diversidade cultural que muitas vezes está interligada ao uso do tabaco.
Consumo de Álcool e Tabaco em Comunidades Tradicionais
Além do tabagismo, a pesquisa também revelou que 12,3% da população da Amazônia Legal consome álcool com regularidade, o que significa pelo menos três vezes por semana — um número alarmante quando comparado à média nacional, que gira em torno de 3%, conforme apontado em estudos do Datafolha.
Esses hábitos de consumo, tanto de álcool quanto de tabaco, têm sido problemáticos para as comunidades tradicionais há décadas. O tema foi amplamente debatido na 1ª Conferência Internacional sobre Consumo de Álcool e Redução de Danos, realizada em Recife no ano de 2002. Recentemente, o podcast ‘Dois Mundos’, da Folha de S.Paulo, destacou a persistência desses problemas em diversas etnias da Amazônia.
A diretora-adjunta de Doenças Crônicas da Vital Strategies, Luciana Vasconcelos, aponta que a principal barreira para a redução do tabagismo nessas comunidades é a falta de informação sobre saúde. Ela ressalta que muitas dessas populações vivem distantes dos serviços de atenção primária, onde ocorrem ações de prevenção e educação sobre os riscos à saúde.
“Historicamente, a ausência de ações de comunicação voltadas para a saúde está ligada a índices mais altos de tabagismo. Quando o usuário não frequenta os serviços de saúde, ele não conhece os impactos negativos que certos hábitos podem ter em sua saúde”, comentou.
Fatores Culturais e o Tabaco
Além das questões informativas, o especialista técnico da Vital Strategies, Gabriel Cortês, enfatiza que fatores culturais também desempenham um papel crucial no aumento do tabagismo. Segundo ele, o tabaco tem uma forte ligação com rituais tradicionais e religiosas, além de ser parte do cotidiano e dos hábitos de trabalho dessas comunidades. É comum ver a imagem do seringueiro ou do pescador com um cigarro entre os dedos.
A prevalência do tabagismo entre os homens na Amazônia Legal é ainda mais notável, com 12,8% deles se declarando fumantes, enquanto apenas 4,6% das mulheres apresentam o mesmo hábito. Essa diferença de gênero revela uma dinâmica complexa relacionada ao consumo de tabaco na região.
Portanto, a luta contra o tabagismo nas comunidades tradicionais da Amazônia Legal exige uma abordagem integrada que considere tanto a educação em saúde quanto o respeito às tradições culturais. O fortalecimento da atenção básica à saúde e a promoção de informações acessíveis podem ser passos fundamentais para mudar esse cenário alarmante.
