O Surgimento de Bolsonaro e as Mudanças na Política Brasileira
Nos anos de 2010, a figura de Jair Bolsonaro era vista com indiferença. O deputado, então considerado de baixo clero, passava os dias longe dos holofotes da mídia tradicional, preferindo aparecer em programas humorísticos, onde suas declarações polêmicas sobre temas como paradas gay e família divertiam a plateia. Naquela época, suas falas, embora provocativas, careciam de impacto, já que ele não era levado a sério pelos colegas do Congresso ou pela grande imprensa.
Com o passar dos anos, essa percepção começou a mudar. Em 2016, um novo cenário se desenhou. Bolsonaro, que até então era um ‘zé-ninguém’ na política, começou a atrair multidões em eventos, sendo recebido com gritos de “mito”. Em 2018, ao concorrer à presidência, sua trajetória se transformou de desprezo em subestimação, mas o crescimento de sua popularidade surpreendeu analistas que, inicialmente, consideraram sua candidatura como uma piada passageira.
Pesquisas Reveladoras sobre o Conservadorismo Brasileiro
Após sete anos, duas pesquisas recentes trouxeram à tona os fatores que podem explicar a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência. Encomendadas pela TV Globo, a pesquisa da Quaest e o estudo realizado pelo think tank More in Common, que contou com 10 mil entrevistados, revelaram dados cruciais sobre a sociedade brasileira. Ambas as pesquisas, que têm uma amostra cinco vezes maior do que as tradicionais, têm o objetivo de mapear as crenças e valores do povo brasileiro.
Os resultados são claros: a sociedade brasileira é, em sua essência, conservadora. A pesquisa da Quaest destaca que o sentimento religioso é predominante, com a família ocupando um papel fundamental logo após Deus. Além disso, os brasileiros expressam um forte orgulho nacional, superando o de cidadãos de países como os Estados Unidos e Noruega. As principais preocupações do povo estão ligadas à criminalidade e à corrupção.
Crenças e Valores que Definem o Eleitorado
O levantamento também trouxe à luz algumas afirmações que revelam a mentalidade conservadora da população. Uma maioria significativa dos entrevistados concorda que “uma mulher deve ter filhos para se sentir realizada” e que “uma mulher que opta pelo aborto deve ser punida”. Além disso, muitos acreditam que “pessoas pobres não se esforçam para melhorar de vida” e que é necessário ajudar apenas quem merece. As opiniões sobre homossexualidade também são alarmantes, com sete em cada dez entrevistados se manifestando contra a aceitação dessa orientação sexual.
Se essas pesquisas tivessem sido realizadas em 2018, a escolha do novo presidente seria bastante previsível. Com slogans que exaltavam Deus, pátria e família, além de promessas de uma postura rígida contra o crime, Bolsonaro conseguiu captar a essência das crenças e ressentimentos de muitos brasileiros, o que explica sua vitória eleitoral.
O Cenário Atual: Fracasso da Política Tradicional
Contrariando a ideia de que o bolsonarismo continua forte, as últimas pesquisas mostram que sua influência caiu para 12% do eleitorado. A presença de um novo Bolsonaro competindo com o atual presidente Lula não é apenas um reflexo da força do bolsonarismo, mas sim um indicativo do fracasso da política tradicional em oferecer representatividade adequada à população. Esse vácuo é agravado por um fisiologismo e desorganização na direita, enquanto a esquerda se divide em duas frentes: uma que vê o Brasil como um problema a ser corrigido e outra que não consegue trazer novas lideranças.
Se não houver mudanças significativas, a campanha de 2026 poderá repetir os erros de 2018, mas em um novo formato, quase cômico, diante das tragédias que marcam a política atual. A reflexão sobre esses dados é crucial para entender os desafios que o Brasil enfrenta na busca por uma representação política mais eficaz e humana.
