Um Imperativo Político
Na história, há momentos em que eufemismos se tornam insuficientes e a clareza se torna um dever político. Afirmar a realidade dos fatos não é apenas uma questão de retórica, mas um princípio ético. Quando um país impõe sua força, sequestrando um líder e transformando-o em moeda de barganha, não se trata de incertezas ou ambiguidades.
O período atual exige uma análise cuidadosa e um olhar atento para os desdobramentos. Nomear o que acontece, sem rodeios, não é um exagero retórico, mas uma necessidade. As ações dos Estados Unidos contra a Venezuela, realizadas com arrogância e justificadas com cinismo, representam mais um capítulo de uma longa ofensiva imperialista.
Nosso compromisso no jornalismo é com a verdade e a credibilidade. É nosso papel, enquanto veículo comprometido com a soberania dos povos e com a integração do Sul Global, recusar a falsa neutralidade e a linguagem que naturaliza a violência imperialista. Silenciar ou minimizar o sequestro de um chefe de Estado é, em última análise, colaborar com a aceitação do inaceitável. Nossa obrigação é com a verdade histórica, a autodeterminação dos povos e o direito de existir fora da tutela estadunidense, mesmo que isso nos coloque em confronto com interesses poderosos.
Um Casos Revisado
O sequestro do presidente legítimo, Nicolás Maduro, não é um ato isolado, mas um método. Este procedimento, historicamente aplicado na América Latina, se torna frequente sempre que governos tentam manter sua soberania sobre seus recursos naturais e projetos políticos. Esse método é o resultado de uma sequência de ações bem documentadas: sanções econômicas, guerra informacional, tentativas de deslegitimação eleitoral e acusações fabricadas sob o pretexto de combater o narcotráfico. Todas essas estratégias pavimentaram o caminho para a violência direta.
A alegação de combate ao narcotráfico é uma falácia recorrente. As ações de cerco econômico atuam como uma estratégia deliberada para desestabilizar países soberanos. O Brasil, que sabe bem o custo de golpes e intervenções externas, tem um papel crucial nesta dinâmica regional. A recusa em reconhecer as eleições venezuelanas, embora apresentado como um gesto técnico, e o veto à inclusão da Venezuela no Brics, pesam no cenário geopolítico.
Reações Insuficientes
Apesar de algumas declarações mais firmes de diversos países, as respostas ainda parecem aquém. Não existe, atualmente, uma governança global eficaz que possa conter tais ações criminosas. O que ocorreu em Gaza, que expôs crimes contra a humanidade em tempo real, revela a fragilidade de organismos multilaterais diante de agressões dessa magnitude.
A história é clara: os Estados Unidos continuam a agir como sempre em nosso continente e no mundo. Desde as intervenções e golpes militares nas décadas de 60 e 70, até os bloqueios impostos a Cuba e à Venezuela nos últimos anos, vemos um padrão de comportamento. Sanções, tarifas e chantagens comerciais são direcionadas também a outros países do Sul Global.
Um Projeto de Poder
Essas ações fazem parte de um projeto de poder que foi se estruturando desde o pós-Segunda Guerra Mundial, consolidando os Estados Unidos como uma potência hegemônica disposta a intervir sempre que seus interesses são ameaçados. A guerra atualmente é multifacetada: econômica, ideológica, informacional e, quando necessário, armada.
Em um pronunciamento recente, Donald Trump reafirma essa lógica sem quaisquer constrangimentos. Sua fala é um recado claro para que nenhum país ouse se opor aos caprichos de Washington. Enquanto isso, Milei celebra sua subserviência, e outros permanecem em silêncio, ponderando os custos da oposição.
A Resposta da Venezuela e o Papel Internacional
Quando Trump menciona um “governo de transição”, é evidente que se refere a uma reedição de alianças com setores golpistas na Venezuela, que já foram derrotados nas urnas, mas estão sempre prontos para negociar a soberania em troca de poder.
A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, classificou o sequestro político de Maduro como uma agressão direta à soberania nacional, responsabilizando os Estados Unidos pela segurança do líder. Ela exige provas de vida imediatas e rejeita qualquer tentativa de imposição de um governo de transição, afirmando que se trata de uma operação externa que viola o direito internacional e não será reconhecida.
O Silêncio Não é Opção
Neste contexto, o papel dos países se torna vital. O silêncio não é sinônimo de neutralidade. Observar atentamente as reações de potências como China, Rússia e países latino-americanos é essencial, assim como entender as reações internas e do Congresso dos EUA.
A indignação é a nossa verdade. Se não a esquecermos, poderá se transformar em uma esperança renovada. É fundamental recusar a normalização da violência e manter a luta viva, pois desistir não é uma opção.
Bertolt Brecht já nos alertava sobre a necessidade de agir e não silenciar diante da injustiça. O chamado à ação é mais urgente do que nunca, pois cada silêncio contribui para um ciclo de cumplicidade.
