A evolução da segurança digital
Por muitos anos, as senhas foram o principal escudo da nossa vida digital. Baratas e práticas, elas se tornaram o padrão global de proteção de dados. Contudo, essa abordagem tem mostrado suas fraquezas: senhas são fáceis de esquecer, tornam-se alvo de ataques e, cada vez mais, se mostram insuficientes diante da crescente complexidade dos crimes virtuais.
No setor bancário, que lida com dados sensíveis e movimentações financeiras significativas, a necessidade de inovação foi percebida rapidamente. Assim, surgiram alternativas como a biometria facial, digital e o reconhecimento de íris.
Conforme a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2024, realizada pela Deloitte, 75% das instituições financeiras no Brasil já utilizam a biometria facial para a identificação de clientes. Atualmente, 82% da população brasileira recorre a algum tipo de autenticação biométrica, seja ao acessar aplicativos, autorizar pagamentos ou desbloquear dispositivos móveis.
O lado obscuro da biometria
A conveniência da biometria é inegável, mas a crescente adoção dessa tecnologia trouxe um efeito indesejado: a evolução também dos golpistas. Apenas em janeiro de 2025, o Brasil contabilizou cerca de 1,24 milhão de tentativas de fraude, representando um aumento de 41,6% em comparação ao mesmo mês do ano anterior, ou seja, uma tentativa a cada 2,2 segundos. Muitas dessas fraudes visam sistemas biométricos.
Os exemplos são variados. Desde fraudes simples, como pedidos de selfies sob falsos pretextos, até o uso de deepfakes para enganar o reconhecimento facial e de voz. Um caso notório aconteceu em Santa Catarina, onde criminosos usaram selfies coletadas por um funcionário de telecomunicações para abrir contas fraudulentas. Em Minas Gerais, golpistas se disfarçaram de entregadores para capturar digitais e fotografias. O chamado ‘golpe do dedo de silicone’, que utiliza moldes de digitais reais, evidenciou a urgência de novas camadas de proteção.
Desafios da biometria física
Um dos principais entraves da biometria tradicional é que ela não pode ser alterada. Se uma senha vaza, é possível criar uma nova. No caso de uma digital comprometida, não há como substituir. Essa limitação abriu espaço para o surgimento de uma tecnologia mais avançada: a biometria comportamental.
Diferentemente das abordagens anteriores, a biometria comportamental analisa não apenas quem você é, mas como você age. Sistemas dessa tecnologia monitoram padrões de digitação, pressão na tela, ritmo dos toques, movimentação do mouse e até sinais de estresse. Isso faz com que cada usuário tenha uma ‘assinatura invisível’ ao interagir com dispositivos eletrônicos.
Crescimento do mercado de biometria comportamental
A tendência é de que o mercado acompanhe essa evolução. De acordo com a consultoria Mordor Intelligence, o setor global de biometria comportamental foi avaliado em cerca de US$ 1,06 bilhão em 2020 e deve alcançar US$ 3,91 bilhões até 2026, com um crescimento anual superior a 25%.
A principal vantagem dessa abordagem é que a análise ocorre de maneira contínua e discreta. Enquanto a biometria tradicional valida apenas no momento do login, a biometria comportamental monitora toda a sessão, identificando comportamentos anômalos em tempo real, sem criar barreiras adicionais para o usuário legítimo.
O futuro da autenticação digital
No Brasil, grandes instituições financeiras já estão discutindo o uso dessa tecnologia como uma forma de criar uma visão mais abrangente da identidade digital. A ideia é que o padrão de comportamento de um usuário pode revelar mais do que um simples documento ou foto pode oferecer.
O futuro da segurança digital tende a ser pautado por autenticação multifatorial e multicamadas. A combinação de biometria física com verificar a vida, análise comportamental, monitoramento de dispositivos, localização e a aplicação de inteligência artificial promete um sistema de proteção mais robusto.
É importante ressaltar que nenhum fator isolado é suficiente para garantir segurança total. A proteção deve ser entendida como um ecossistema adaptativo, que aprende continuamente.
A realidade atual se assemelha a uma corrida armamentista digital: a cada avanço na proteção, novas tentativas de fraude surgem. Nesse contexto, a habilidade de proteger o cliente sem sacrificar a experiência do usuário tornou-se um diferencial competitivo essencial.
No fundo, trata-se de mais do que tecnologia; é sobre confiança. Em um mercado financeiro cada vez mais digitalizado, a confiança é o ativo que determina quem se mantém relevante.
