Desigualdade de Gênero Persiste nas Eleições de Outubro
Històricamente, o Espírito Santo apresenta um cenário preocupante em relação à participação feminina na política. A representatividade das mulheres nas esferas de poder, especialmente nas casas legislativas, tem se mostrado extremamente baixa, refletindo uma desigualdade que persiste ao longo dos anos. A situação é evidente tanto nas Câmaras de Vereadores dos municípios capixabas quanto na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) e na bancada capixaba no Congresso Nacional.
Desde a redemocratização do Brasil, o avanço na inclusão de mulheres em cargos eletivos tem sido minimal. E as previsões para as próximas eleições gerais em outubro de 2024 não são animadoras. De acordo com as projeções, a Câmara Federal, que conta com dez cadeiras destinadas ao Espírito Santo, poderá eleger entre zero a duas mulheres, o que significaria apenas 20% da bancada.
Atualmente, apenas uma mulher ocupa uma das cadeiras da Câmara Federal: Jack Rocha, do PT, que foi eleita em 2022. Este cenário é ainda mais alarmante se considerarmos que, nas últimas décadas, embora o movimento feminista tenha ganhado força e promovido discussões em torno da igualdade de gênero, a realidade política do estado regrediu no que diz respeito à representatividade feminina.
Para ilustrar essa questão, vale lembrar que no início da Nova República, o Espírito Santo possuía o mesmo número de representantes na Câmara dos Deputados que hoje, mas a quantidade de mulheres eleitas era maior. Nas eleições diretas de 1986, o estado elegeu duas deputadas federais, Rose de Freitas e Rita Camata, que participaram ativamente na elaboração da Constituição de 1988.
Avançando para o século XXI, observa-se que as eleições de 2018 marcaram um pico de 30% de representação feminina, com a eleição de três mulheres: Norma Ayub, Soraya Manato e Lauriete. No entanto, é importante destacar que essas candidaturas estavam fortemente ligadas a seus maridos, que também são figuras políticas proeminentes. Esse fenômeno, conhecido como “bancada das esposas”, levanta questões sobre a real autonomia das mulheres na política capixaba.
No entanto, em 2022, nenhuma dessas três conseguiu se reeleger, sendo Jack Rocha a única a manter um assento, devido ao apoio da militância do PT e de movimentos sociais. Sua trajetória, ainda que promissora, enfrenta desafios significativos nas próximas eleições.
Para o pleito de 2026, a situação se apresenta complicada. Jack Rocha é a única mulher que se destaca nas chapas preliminares. Contudo, a saída de Helder Salomão para a disputa ao governo pode enfraquecer sua chapa, limitando as chances de eleição para a Câmara. Além disso, a concorrência interna por voto pode reduzí-las ainda mais, considerando que João Coser, também do PT, busca retornar ao cargo.
Do lado do PSB, a secretária estadual de Governo, Emanuela Pedroso, surge como uma possível candidata forte, mas ela também terá que enfrentar a competição interna de outros candidatos homens se quiser garantir uma vaga na Câmara. O cenário é desolador, pois pouco se vê de novas pré-candidatas que despontem como competitivas nas urnas. Associações e partidos políticos parecem mais preocupados em cumprir a cota mínima de gênero do que em promover mulheres com reais chances de vitória.
Além disso, a prática de candidaturas laranjas, em que mulheres são lançadas apenas para atender a exigências legais e não têm a intenção de efetivamente concorrer, tem se tornado comum. Essa situação é potencializada pela desigualdade nas estruturas partidárias, onde a maioria dos dirigentes são homens, o que limita o espaço para decisões que possam favorecer a inclusão de mulheres na política.
O Espírito Santo, que já foi um exemplo de participação feminina, agora se destaca como um dos estados com a menor proporção de mulheres em cargos eletivos. Nas Câmaras Municipais, por exemplo, as mulheres ocupam apenas 10% das cadeiras disponíveis. A situação exige uma reflexão profunda sobre como melhorar a representatividade feminina e garantir que mais mulheres tenham voz e espaço na política capixaba.
As eleições de outubro se aproximam, e a expectativa é que os partidos tomem medidas concretas para oferecer condições mais igualitárias para candidaturas femininas, o que, até o momento, parece uma meta distante. A luta pela igualdade de gênero nas esferas de poder continua, e o desafio é grande para que o Espírito Santo possa se tornar um estado mais justo e representativo.
