Desafios da Reforma Agrária no Espírito Santo
Apesar da reabertura do discurso a favor da reforma agrária no terceiro mandato do presidente Lula, o Espírito Santo avançou lentamente em 2025, com a criação de apenas dois novos assentamentos. A situação é preocupante, já que milhares de famílias permanecem à espera de um espaço seguro para viver. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) intensificou suas mobilizações, exigindo que o governo federal agilize a desapropriação de terras e garanta o assentamento de 1,4 mil famílias no estado.
No último mês de outubro, o Espírito Santo registrou a criação de dois novos assentamentos: o Virgínia Xavier, em São José do Calçado, que deve abrigar 12 famílias, e o Roda d’Água, em Barra de São Francisco, com capacidade para 32 famílias. Ambos foram anunciados no lançamento do programa federal Terra da Gente, que prometeu 12,2 mil novos lotes em 138 assentamentos em 24 estados. Contudo, a criação de novos espaços tem sido considerada insuficiente frente à demanda acumulada de assentamento no estado.
Demanda Acumulada e Críticas ao Governo
Embora os novos assentamentos tenham sido um passo positivo, a avaliação do MST é de que esses avanços não atendem às necessidades das milhares de famílias que ainda estão em situação precária. Somando apenas 86 lotes, a realidade é alarmante, visto que muitos desses espaços já estavam desapropriados há mais de uma década, como é o caso da Fazenda Roda D’Água, desapropriada em 2006, e a área do Virgínia Xavier, que foi desapropriada em 2009. O MST também destacou que, durante o atual mandato, não houve novas desapropriações efetivas.
Um levantamento realizado pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra) revelou que somente 3,3 mil famílias foram assentadas em novas áreas desde o início do governo atual. O retrato da reforma agrária no Espírito Santo é preocupante e merece atenção, especialmente quando se considera que, até março, mais de mil mulheres do MST ocuparam uma área pertencente à Suzano, em Aracruz, em protesto contra a lentidão do processo de reforma agrária e as injustiças cometidas pelo agronegócio.
Conflitos e Sustentabilidade no Agronegócio
O conflito com a Suzano é um dos muitos desafios enfrentados pelas lideranças capixaba. O movimento denuncia que várias terras envolvidas são áreas públicas que foram cedidas pelo governo a uma única empresa, que atualmente possui 2,7 milhões de hectares no Brasil, dos quais 1,4 milhão são utilizados para monocultivo de eucalipto. De acordo com o MST, esse espaço poderia ser utilizado para assentar mais de 100 mil famílias e contribuir significativamente para a produção de alimentos.
Em fevereiro, uma das poucas conquistas do MST foi a emissão de posse das fazendas Floresta e Texas, em São Mateus, após um longo processo de desapropriação iniciado em 2009 que enfrentou disputas judiciais. Apesar de ser um passo importante, a nota de balanço do MST em relação a 2025 ressalta que o ano foi de luta e resistência, mas as conquistas foram limitadas e muitas vezes simbólicas.
Reflexões sobre o Futuro da Reforma Agrária
A dirigente Débora Nunes reforçou que a produção de alimentos saudáveis é um ato político que vai além da simples produção; é uma questão de amor ao país. É uma tentativa de enfrentar a fome e cuidar da natureza, mostrando que um novo modelo de sociedade é necessário. No entanto, ela alerta que o que se observa atualmente é uma paralisação das desapropriações e a continuidade da hegemonia do agronegócio no Brasil.
Além disso, o MST criticou a desigualdade na destinação de recursos públicos, apontando que, em 2025, o governo destinou R$ 557 bilhões ao Plano Safra do agronegócio, enquanto apenas R$ 1 bilhão teria sido suficiente para fazer uma diferença significativa na reforma agrária. A urgência na pauta é clara, com mais de 100 mil famílias acampadas em busca de uma solução. O movimento conclui que a reforma agrária popular é essencial para enfrentar a fome, a crise ambiental e as desigualdades sociais no Brasil.
