O Desafio da Recusa Familiar na Doação de Órgãos
Durante o período de luto, cerca de 45% das famílias brasileiras negam a doação de órgãos, mesmo sabendo que suas decisões podem salvar vidas. Esse índice se mantém estável há mais de dez anos e apresenta variações significativas entre diferentes estados, refletindo contextos políticos variados. Isso levanta uma questão fundamental: qual o papel da política nesta realidade?
Um levantamento recente da Agência Pública revelou flutuações nas taxas de recusa desde 2013. Em algumas ocasiões, essas oscilações coincidem com transições administrativas, sugerindo que mudanças na gestão das políticas estaduais de saúde podem ter um impacto significativo. Porém, especialistas e gestores afirmam que fatores como continuidade institucional, qualificação profissional e acesso à informação são cruciais para o sucesso nas doações, independentemente das orientações políticas atuais.
Casos Exemplares: Santa Catarina e Paraná
Santa Catarina, por exemplo, é um destaque positivo, com taxas de recusa familiar em torno de 30% nos últimos cinco anos. O coordenador da SC Transplantes, Joel de Andrade, atribui esse sucesso a um modelo de doação inspirado na Espanha, que prioriza a formação contínua dos profissionais envolvidos. Segundo Andrade, a presença de coordenadores hospitalares treinados e uma estratégia de comunicação eficiente com as famílias são fundamentais. “Desde a implementação do curso de Comunicação em Situações Críticas, mais de 3 mil profissionais receberam capacitação, resultando em uma queda da taxa de negativa de 70% para menos de 30%”, afirma.
No Paraná, onde a recusa se mantém abaixo de 35%, a Secretaria de Saúde (SESA-PR) também relata que as melhorias são fruto de um sistema robusto, que inclui a padronização de processos e monitoramento contínuo. O secretário de Saúde do estado, Beto Preto, enfatiza a importância da capacitação dos profissionais e da continuidade das políticas de transplante. “A qualificação contínua e o comprometimento dos profissionais são essenciais para transformar a realidade das pessoas que aguardam um transplante. Além disso, investimentos em campanhas de conscientização são vitais para fortalecer o sistema”, pontua.
Desafios e Oportunidades: A Realidade em Goiás
Enquanto isso, Goiás enfrenta um cenário mais desafiador, com taxas de recusa que alcançam 70%, especialmente sob a gestão do governador Ronaldo Caiado (União). A Secretaria de Saúde local atribui essa alta a diversos fatores, incluindo a fragilidade emocional das famílias em momentos de decisão e influências culturais, sociais e religiosas. Embora desde 2019 as políticas de transplantes tenham sido intensificadas, os desafios permanecem relacionados à necessidade de qualificação e padronização de fluxos hospitalares, além do fortalecimento da comunicação com as famílias.
O plano estadual em desenvolvimento visa estruturar ações voltadas para a melhoria da comunicação e para a ampliação da cultura de doação, com o objetivo de reduzir a recusa familiar. “Precisamos de um enfoque mais proativo na capacitação das equipes e na criação de um diálogo efetivo com as famílias”, complementa a Secretaria da Saúde.
A Influência da Política na Doação de Órgãos
Embora o levantamento da Agência Pública identifique momentos de mudança nas taxas de recusa que coincidem com transições de governo, para o médico e membro do conselho da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, Lucas Nacif, a relação entre a cor partidária e a recusa familiar é menos direta. “A falta de informação consistente histórica é um dos principais fatores que dificultam a redução das taxas de negativa. Precisamos de campanhas efetivas que cheguem até as famílias, além de um suporte governamental que facilite o acesso a essas informações”, argumenta.
Portanto, apesar de algumas variáveis políticas influenciarem a situação, a qualificação dos profissionais de saúde e a formação de uma cultura sólida em torno da doação de órgãos são fundamentais para enfrentar o emaranhado de desafios que envolvem a recusa familiar. À medida que o Brasil busca melhorar suas taxas de doação, o papel da política, embora relevante, precisa ser complementado por iniciativas sólidas que priorizem a educação e a sensibilização da população.
