Reencontrando Conexões na Leitura
Em um sábado chuvoso na Grande Vitória, um grupo de nove mulheres se reuniu em Itaparica, Vila Velha, para discutir a obra “Pactos Mortais”, de Steve Cavanagh, um thriller psicológico envolvente. O que parecia ser apenas uma reunião de um clube do livro revelou-se um momento de apoio mútuo, onde o ato de ler se transformou na desculpa perfeita para fortalecer amizades. Essa nova abordagem de clubes do livro está se tornando cada vez mais popular entre os millennials e a geração Z. No TikTok, a hashtag #BookTok já acumula impressionantes 76,2 milhões de vídeos, enquanto no Brasil, são 21 bilhões de visualizações.
Tradicionalmente associados a adultos degustando vinho e livros em salas de jantar, os clubes do livro agora reúnem jovens que buscam não apenas compartilhar leituras, mas também cultivar novas amizades.
A Iniciativa que Mudou Vidas
A engenheira ambiental Ana Hott, 28 anos, cansada do uso constante de telas durante a pandemia, decidiu criar seu próprio clube de leitura. Chamado “Nem Li”, o grupo foi formado a partir de um link compartilhado em um grupo do WhatsApp com mulheres do Centro de Tecnologia da Ufes. Desde março, o clube já completou dois anos e proporcionou a Ana e suas integrantes experiências além da literatura, incluindo trocas de presentes, idas ao cinema e até viagens temáticas.
Thayná Prata, outra engenheira ambiental de 28 anos, compartilhou sua experiência ao entrar no clube. Inicialmente hesitante, destacou a importância das relações que foram se formando: “Entrei não apenas pela leitura, mas pela conexão que estabelecemos entre nós”.
Conexões que Ajudam a Superar Dificuldades
Enquanto as integrantes se envolvem nas discussões, algumas delas descobriram um espaço seguro para compartilhar suas vivências, como é o caso de Melina Schneider, 32 anos, que perdeu sua mãe no ano passado. Através do clube, encontrou apoio para atravessar seu luto: “Entendi que ali era meu ponto seguro. O importante é a conexão que foi construída”, afirmou Melina.
O “Canecas Literárias”, criado por Monique, Igor, Geísa e Mara em 2024, também reflete esse novo modelo de interação. Com 18 integrantes, o clube promove encontros mensais que acolhem todos os apaixonados por leitura, promovendo um ambiente de troca e aprendizado.
Uma Nova Mentalidade: Vida Offline
O desejo de construir uma vida longe das telas vai além dos clubes do livro. Sair das redes sociais e buscar uma vida “low profile” se tornou uma tendência. O Relatório Mundial da Felicidade de 2026 aponta que o uso excessivo de plataformas como Twitter, Instagram e TikTok está associado a níveis mais baixos de felicidade e um aumento significativo de problemas de saúde mental.
A psicóloga Fernanda Perim, fundadora da Psimama, explica que a constante exposição às telas está ligada a uma liberação intensa de dopamina, criando um ciclo vicioso de busca por validação nas redes sociais. “As experiências da vida offline podem parecer menos interessantes em comparação com a realidade virtual”, destacou.
Buscando Novas Atividades e Hobbies
Mariana Lima Cascardo, 26 anos, decidiu se afastar das redes sociais após sentir que estava perdendo tempo preciosos. “Quando percebi que estava apenas rolando a tela sem interagir, resolvi mudar”, contou. Desde então, ela se dedicou a atividades como arco e flecha, leitura e exercícios físicos.
Por outro lado, Vanessa Mayer, arquiteta de 30 anos, utiliza seu perfil no Instagram para inspirar outras pessoas a desacelerar, promovendo o crochê como um hobby que ajuda a se desconectar das telas: “O crochê me permite focar. Ali estou totalmente imersa no que estou fazendo”, relatou.
A Importância da Atividade Física e Conexões Pessoais
Além de atividades manuais, práticas esportivas também têm ganhado destaque. A designer gráfica Luiza Ferreguete, 26 anos, encontrou na capoeira um espaço não apenas para exercitar o corpo, mas também para cultivar conexões pessoais: “É um momento de presença, onde cuido de mim e me desconecto das preocupações do dia a dia”, disse Luiza.
Equilibrando Tecnologia e Vida Real
Embora essas novas tendências possam parecer passageiras, o que se constrói fora das redes sociais tem um significado profundo. A psicóloga Fernanda Perim reforça que é possível manter um relacionamento saudável com a tecnologia. “Para isso, é necessário acesso à informação de qualidade”, concluiu. Buscar novas amizades e experiências fora do mundo virtual pode ser a chave para um bem-estar mais equilibrado e significativo.
