Uma Nova Perspectiva sobre os Reality Shows
Em 2004, Shandi Sullivan, uma balconista de farmácia, acreditava que sua vida mudaria ao participar do reality show “America’s Next Top Model”. Transmitido nos Estados Unidos de 2003 até 2018, o programa, comandado pela icônica Tyra Banks, prometia transformar a vida de suas participantes. Contudo, mesmo sendo considerada uma das favoritas da segunda temporada, Shandi terminou em terceiro lugar, devastada não apenas pela derrota, mas também por ter sido vítima de abuso sexual durante as gravações.
A história de Shandi é um dos diversos relatos que voltam à tona com o lançamento da série documental “America’s Next Top Model: Choque de Realidade”, disponível na Netflix. Esta produção faz parte de uma tendência maior que revisita a televisão dos anos 2000, evidenciando os excessos e as falhas daqueles programas. Outro exemplo é “Magreza na TV: A Verdade sobre The Biggest Loser”, que revive a competição de emagrecimento que ocorreu entre 2004 e 2016 e obteve grande popularidade, inclusive no Brasil.
A Nostalgia e os Novos Olhares
Segundo Ayla Pinheiro Gomes, doutoranda em Comunicação na UFF e pesquisadora de cultura pop, esses documentários refletem uma onda nostálgica que permeia as produções culturais recentes. Para Ayla, é natural que esses reality shows, que fizeram parte da cultura dos anos 2000, voltem a ganhar destaque, especialmente em tempos em que a reflexão crítica sobre o passado é tão necessária.
O aumento do interesse por esses conteúdos também pode ser atribuído às redes sociais e ao contexto da pandemia, que trouxe à tona a popularidade de programas do passado, levando a Netflix a encomendar novas produções. Apesar de seu sucesso — a série “Choque de Realidade” alcançou o primeiro lugar nas charts globais logo na estreia, em fevereiro —, as críticas sobre o que se chamou de “rage bait” (isca de raiva) são recorrentes. Essa expressão, que ganha força em 2025, critica a ideia de que o conteúdo seria feito somente para gerar indignação e viralizar.
Debate Necessário sobre Racismo e Representatividade
Daniel Sivan, um dos diretores de “Choque de Realidade”, defende que a discussão sobre imagem corporal e representatividade é fundamental e muitas vezes negligenciada em conversas cotidianas. Em uma chamada de vídeo, ele afirmou: “As pessoas falam sobre futebol, suas bandas favoritas, mas não discutem questões tão relevantes nas redes”.
Os reality shows dos anos 2000, conforme observado em “Choque de Realidade”, frequentemente reforçaram padrões de beleza de maneira degradante. Participantes negros e latinos enfrentavam estereótipos e racismo abertamente. Os produtores e apresentadores, agora reavaliando suas escolhas, costumam justificar que tais programas eram “produtos do seu tempo”. Contudo, Tyra Banks, em algumas de suas entrevistas, hesita em assumir a responsabilidade pela linha editorial do programa, muitas vezes atribuindo os erros a uma suposta normalidade daquela época.
Daniel Sivan não aceita essa argumentação: “Quando algo está errado, está errado, independentemente do tempo”, afirma, ressaltando a importância de discutir essas questões sem a necessidade de uma perspectiva de duas décadas. Essa visão é compartilhada por Sophie Gilbert, jornalista e crítica cultural, que lançou o livro “Garota sobre Garota”, onde analisa como esses produtos influenciaram padrões de beleza e as expectativas da geração millennial, agora entre 30 e 40 anos.
A Evolução na Percepção do Público
Gilbert destaca que a crítica a esses programas já era presente nos anos 2000, mas que, atualmente, temos uma compreensão muito mais aprofundada sobre saúde mental e os impactos negativos da humilhação. “Hoje, a audiência está muito menos disposta a aceitar esse tipo de tratamento na televisão”, argumenta, enfatizando a diferença entre o consumo de conteúdo nas redes sociais e na TV tradicional. Essa mudança é um reflexo de uma sociedade que busca ser mais inclusiva e respeitosa, além de repensar a forma como a cultura pop molda nossas percepções e interações.
