Um Elo Vital na Comunicação Local
No cenário atual, onde a tecnologia parece dominar o cotidiano, 14 orelhões ainda resistem à modernidade no Espírito Santo. Dados recentes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) destacam a presença desses equipamentos, levando a equipe do Folha Vitória a investigar: afinal, quem ainda utiliza esses telefones públicos?
A jornada teve início no distrito de Cinco Pontões, situado na zona rural de Laranja da Terra, na região Serrana do Estado. Nesse local, um orelhão se tornou essencial para a comunicação da comunidade.
Ao contrário de ser apenas mais um objeto esquecido nas calçadas, um desses aparelhos encontrou um novo lar na varanda de um bar local. Realizamos uma ligação para o número oferecido pela Anatel e, para nossa surpresa, a chamada foi atendida sem demora.
A Nova Função do Orelhão
No passado, o uso dos orelhões era bastante comum, mas o aparelho de Cinco Pontões agora desempenha um papel diferente. Ele se transformou em uma verdadeira central de recados comunitária.
Em uma região onde o sinal de celular é frequentemente instável ou até inexistente, o telefone localizado no bar serve como ponto de referência para moradores que precisam se comunicar com suas famílias ou deixar avisos importantes.
“Cinco Pontões enfrenta dificuldades em relação ao sinal telefônico. Recentemente, uma torre de telefonia foi instalada em uma comunidade vizinha, permitindo um pequeno avanço na cobertura. Embora muitas casas agora tenham acesso à internet, a conexão nem sempre é confiável. Aqui, todos se conhecem, então é comum ligar para o orelhão e deixar recados”, explica Sandra Gomes, uma professora local.
Um Atendimento Atento e Solidário
Quando alguém precisa deixar uma mensagem, é Maria Auxiliadora Rodrigues, mãe do proprietário do bar, quem atende as chamadas. Ela tem se tornado a guardiã desse elo de comunicação. “Eu mesma não possuo celular. Muitas vezes dou esse número quando alguém precisa entrar em contato comigo”, compartilha Maria.
Curiosamente, o orelhão de Cinco Pontões não apresenta a estrutura tradicional que o caracterizaria, como a curvatura que protege do sol e da chuva. Ele foi instalado na varanda do bar há pouco mais de um ano, adaptando-se às necessidades da comunidade.
O Futuro dos Orelhões no Brasil
De acordo com a Anatel, a situação dos orelhões pode mudar a partir do fim dos contratos de concessão, previsto para o final de 2025. As empresas de telefonia não estarão mais obrigadas a manter os aparelhos em funcionamento, exceto em áreas onde não há outro serviço de voz disponível. A agência também informa que alguns orelhões poderão continuar em operação até 2028.
Em dezembro de 2024, o número total de orelhões instalados no Espírito Santo era de 224, mas esse número caiu drasticamente para apenas 15 em dezembro de 2025. No site da Anatel, é possível consultar a localização exata desses aparelhos que, mesmo em um mundo digital, ainda desempenham um papel significativo.
Os 15 orelhões restantes estão distribuídos em várias cidades, incluindo Alegre, Barra de São Francisco, Ecoporanga, Laranja da Terra, Linhares, Mucurici, Muniz Freire, Presidente Kennedy, São Gabriel da Palha e São Mateus. Essa realidade retrata não apenas a resistência de um serviço em extinção, mas também a solidariedade e a adaptação de uma comunidade que ainda valoriza a comunicação direta.
