Impactos das Tensas Relações no Comércio Agrícola
O advogado Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, ressalta que o contexto atual requer vigilância constante. “Os contratos não são imediatamente suspensos por força maior, pois os exportadores brasileiros podem explorar rotas alternativas, como o Mediterrâneo. Contudo, essas opções tendem a ser mais onerosas e complexas”, afirmou.
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) monitorou a situação de perto e, até o momento, não registrou impactos diretos nas operações das empresas associadas. Entretanto, a situação no Oriente Médio pode trazer desdobramentos significativos para os setores do agronegócio.
Oportunidades e Desafios para o Etanol
De acordo com uma análise da XP, o conflito em curso pode beneficiar os preços do etanol. O relatório destaca que a escalada nos preços do petróleo já é visível nas bolsas internacionais. Na segunda-feira, os contratos Brent e WTI registraram alta superior a 2%, com o barril ultrapassando a marca de US$ 70.
Com a valorização do petróleo, a competitividade do etanol em relação aos combustíveis fósseis se torna mais favorável, proporcionando um cenário promissor para o biocombustível.
Fertilizantes em Risco de Escassez
Maísa Romanello, analista de mercado de fertilizantes da Safras&Mercado, alerta que a dependência brasileira do gás natural proveniente do Irã para a produção de fertilizantes pode trazer desafios. “O Irã é um fornecedor crucial desse insumo para países que exportam nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria. Caso haja interrupções, a disponibilidade de matéria-prima será prejudicada”, explica.
Os preços da ureia, por exemplo, já estão em alta, com o Egito registrando valores próximos a US$ 540 por tonelada, um aumento de mais de 10% em relação à semana anterior, segundo a consultoria StoneX.
Movimentações do Setor de Exportação
Tomás Pernías, analista da StoneX, observa que a região do Oriente Médio é responsável por aproximadamente 40% das exportações globais de ureia. “Após o início do conflito, muitos fornecedores retiraram suas ofertas, aguardando maior clareza sobre a precificação do insumo”, afirma. Esse clima de incerteza está gerando uma expectativa sobre os preços da ureia, com valores que podem variar entre 400 e 700 dólares por tonelada.
Os exportadores brasileiros já estão adaptando suas rotas para assegurar as exportações ao Oriente Médio. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, destacou que os envios que anteriormente passavam pelo canal de Ormuz e Suez estão sendo redirecionados para a rota via Cabo da Boa Esperança, ao sul da África. “Estamos prevendo aumento de custos e prazos de entrega mais longos”, comentou Santin.
Preocupações com a Logística e o Mercado de Contêineres
Com a expectativa de sobrecarga em outros mercados, o vice-presidente da Abrafrutas, Waldyr Promicia, mencionou que algumas empresas de transporte marítimo já interromperam envios para a região do Golfo Pérsico. “A situação é preocupante, pois pode levar à suspensão temporária dessas operações, aumentando a pressão sobre os demais mercados”, lamentou.
Além disso, a escassez de contêineres é uma preocupação recorrente, lembrando os desafios logísticos enfrentados durante a pandemia de Covid-19.
Dependência do Milho e Fertilizantes Estrangeiros
O Irã, em 2025, emergiu como um dos principais importadores de milho brasileiro, adquirindo cerca de 9 milhões de toneladas, o que representa 23% do total exportado. No entanto, a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) expressa preocupações persistentes em relação à dependência de fertilizantes, especialmente a ureia. O diretor executivo da Abramilho, Glauber Silveira, enfatizou a importância desses insumos e a vulnerabilidade do Brasil diante de conflitos na região.
“A ureia é um insumo essencial para a agricultura, e sua escassez pode impactar gravemente a produção”, alertou Silveira.
Incertezas nas Cargas de Soja para o Irã
Com dez navios programados para transportar cerca de 660 mil toneladas de soja e farelo de soja ao Irã, a situação permanece incerta após os recentes ataques dos Estados Unidos e Israel. Arthur Neto, sócio diretor da Alphamar Agência Marítima, mencionou que seis navios já esperam na área de fundeio dos portos brasileiros, enquanto quatro estão em trânsito. “A incerteza sobre o destino dessas cargas é preocupante, e as tradings precisam decidir se manterão os negócios ou redirecionarão as embarcações”, concluiu Neto.
