Fechamento de Lojas e Reestruturação do Hortifruti
O encerramento das atividades do Hortifruti na Praia da Costa, em Vila Velha, representa o fim da presença da rede no Espírito Santo, onde foi originalmente fundada. Em novembro de 2025, a unidade da Praia do Suá, em Vitória, também fechou as portas, após décadas de serviços prestados à população. Atualmente, a rede mantém mais de 60 lojas em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, operando sob a marca Natural da Terra.
Mas, o que realmente motivou a decisão de encerrar os atendimentos no Espírito Santo, especialmente após uma trajetória de expansão no Sudeste, onde se posicionou como uma varejista referência em frutas, legumes e verduras? A resposta está intimamente ligada ao processo de recuperação judicial das Lojas Americanas, que adquiriu a rede Hortifruti em 2021 por R$ 2,1 bilhões. Em 2023, a empresa revelou um rombo financeiro que resultou no pedido de recuperação judicial.
No último agosto, a Americanas S.A. sinalizou aos investidores que planejava retomar a venda da rede hortifrutigranjeira, com um prazo estipulado até fevereiro deste ano. Nesse cenário, especialistas comentam que o fechamento das unidades pode fazer parte de uma estratégia de reorganização para maximizar o valor de mercado durante a venda.
A Estratégia de Reorganização da Rede
“Em processos de reestruturação, é comum realizar ajustes no portfólio para eliminar operações que não são lucrativas, além de reduzir futuras contingências e tornar a estrutura organizacional mais eficiente e previsível. Essa reorganização pode resultar em indicadores financeiros melhores, o que é crucial para dar segurança aos potenciais compradores durante uma auditoria e due diligence”, explica o advogado Marcelo Melo Rodrigues, sócio da Bergi Advocacia.
No fechamento da loja da Praia do Suá, a Hortifruti Natural da Terra justificou a decisão com base em uma análise contínua do desempenho de suas unidades, levando em conta fatores como hábitos de consumo, rentabilidade e demanda.
O advogado Marco Tulio Ribeiro Fialho acrescenta que o principal fator que leva ao fechamento de certas unidades, como as do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, é a necessidade de alcançar rentabilidade. O foco está na preparação da rede para a venda, onde a apresentação de números financeiros robustos se torna fundamental.
“Se a gestão identifica que duas lojas estão dando prejuízo e comprometendo o lucro das demais, a solução é fechar ou vender essas lojas deficitárias”, menciona Fialho, destacando a lógica por trás da limpeza operacional.
Esse processo tem como objetivo aprimorar o EBITDA, um indicador que os investidores observarão atentamente para definir o valor de mercado da rede, visto que quanto maior o EBITDA, melhor o preço de venda que a Americanas poderá obter.
A Operação como Unidade Produtiva Isolada
Embora faça parte da Americanas, a Hortifruti atua como uma Unidade Produtiva Isolada (UPI), o que significa que possui autonomia financeira e administrativa, totalmente desvinculada da administração do grupo principal. Essa estrutura, prevista na Lei de Falências, é crucial para garantir uma “blindagem” ao futuro comprador, evitando que dívidas da Americanas sejam transferidas para a rede.
“A aquisição de uma unidade isolada oferece a garantia de que as dívidas da controladora não impactarão a nova aquisição”, enfatiza Fialho. Sem essa proteção, seria difícil encontrar interessados, considerando o elevado nível de endividamento da Americanas.
Marcelo Rodrigues também ressalta que a recuperação judicial não paralisa as operações empresariais, mas visa encontrar soluções para superar crises financeiras e preservar a empresa e, consequentemente, os empregos. Entretanto, na prática, isso resulta em uma operação com maior restrição de liquidez e um controle financeiro mais rigoroso.
No segmentado setor supermercadista, que geralmente opera com margens apertadas e significativa dependência de capital de giro, os impactos se refletem na revisão de contratos, renegociações com fornecedores e cortes de despesas. Assim, a estratégia da empresa tende a mudar de uma fase de expansão para um enfoque na eficiência operacional e preservação de caixa”, conclui Rodrigues.
