Uma História de Resistência e Identidade
Na Ilha do Marajó, no estado do Pará, a jovem Marcielle, com apenas 13 anos, começa a desafiar os limites impostos em sua vida. O filme “Manas” faz um mergulho no cotidiano das comunidades ribeirinhas, abordando as desigualdades históricas e traçando um paralelo entre a realidade local e debates de relevância global sobre a situação das mulheres e meninas na região.
A narrativa, idealizada pela diretora Marianna Brennand Fortes, é resultado de uma pesquisa aprofundada na área, inspirada por relatos e escuta da população local sobre questões como a violência e exploração sexual de crianças e adolescentes. Ao optar por um formato de ficção, a diretora consegue criar uma obra que respeita o contexto amazônico, evitando a exposição de vítimas reais.
O filme se destaca pela sua abordagem sensorial, oferecendo uma experiência imersiva ao público ao acompanhar intimamente a protagonista. A escolha estética — que varia da fotografia ao som, passando pela ausência de trilha musical — visa evitar a estetização da violência, permitindo que os espectadores se conectem emocionalmente com a trajetória de Marcielle.
O Território Amazônico como Protagonista
Mais do que um mero cenário, a Amazônia desempenha um papel fundamental na construção da história. Aspectos como as dinâmicas das marés, as travessias pelos rios e a interação com a natureza influenciam diretamente o desenvolvimento da narrativa, entrelaçando o cotidiano local com o ritmo do filme.
A indicação de “Manas” ao Prêmio Goya simboliza a crescente visibilidade das produções cinematográficas do Norte do Brasil no circuito internacional e reforça a diversidade regional como uma característica marcante do cinema brasileiro contemporâneo.
Jamilli Correa, uma das figuras centrais do projeto, expressou seu orgulho pela conquista: “Ver uma obra produzida no Pará alcançar um espaço tão importante no cinema mundial é um grande motivo de satisfação. Isso demonstra que nosso cinema possui identidade, força e voz.” A escolha da atriz que interpreta Marcielle foi meticulosa, envolvendo testes com centenas de meninas da região, destacando a autenticidade da representação.
A também atriz Fátima Macedo, que dá vida à personagem Danielle, compartilhou sua alegria pela indicação: “A nomeação de “Manas” para o Prêmio Goya me emociona profundamente, pois reforça a relevância do cinema brasileiro no cenário global, além de evidenciar o impacto que a história causa em quem a assiste.”
Reconhecimento em Festivais Internacionais
O filme já foi amplamente reconhecido, acumulando prêmios em festivais internacionais, como o Director’s Award nas Giornate degli Autori do Festival de Veneza e o Women in Motion Emerging Talent Award no Festival de Cannes, além de mais de 20 premiações em outros festivais ao redor do mundo.
Joelma Gonzaga, secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), enfatizou que o reconhecimento da obra está intimamente ligado ao sistema de fomento existente no Brasil: “A indicação de “Manas” ao Prêmio Goya reafirma a força do audiovisual brasileiro e a importância das políticas públicas para o setor. Isso resulta de talento, diversidade regional e de um sistema de fomento que possibilita que histórias brasileiras alcancem o mundo.”
Investimentos e Apoio à Produção
A produção de “Manas” se beneficiou de recursos provenientes de políticas públicas federais voltadas para o audiovisual, além de contar com cooperação internacional. Ao todo, cerca de R$ 8,76 milhões foram investidos, englobando aportes do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), da Lei do Audiovisual e do Programa Ibermedia.
Por meio do FSA, o filme recebeu R$ 3,35 milhões, distribuições dessas verbas incluem: R$ 100 mil do Edital PRODAV 05/2013 (desenvolvimento), R$ 3 milhões do Edital Concurso Cinema 2018 (produção) e R$ 250 mil destinados à comercialização. Já a Lei do Audiovisual proporcionou um fomento indireto de R$ 5,37 milhões, permitindo que investidores privados contribuíssem. O filme também foi agraciado com o Prêmio Ibermedia, que proporcionou US$ 8,6 mil (aproximadamente R$ 44 mil).
O Ibermedia é um fundo de cooperação entre países ibero-americanos, voltado para apoiar coproduções audiovisuais, e o Brasil participa desse programa com contribuições federais via orçamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
