Cerimônia de Inclusão na Galeria de Reitores da Ufes
A história nem sempre se revela de maneira justa no tempo certo. Frequentemente, há um atraso na valorização de conquistas significativas. Entretanto, a preservação da memória possui uma força extraordinária, capaz de reparar o que a história tenta ocultar. Essas foram as palavras da professora Ethel Maciel, do Departamento de Enfermagem, durante o evento que marcou a aposição de seu retrato na galeria de reitores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A proposta para incluir sua imagem foi apresentada pelo reitor Eustáquio de Castro e aprovada por unanimidade em uma reunião do Conselho Universitário realizada no dia 27 de fevereiro.
A cerimônia, que aconteceu na terça-feira, 17, na Sala dos Conselhos, contou com uma série de pronunciamentos e manifestações de apoio à trajetória de Ethel. O evento teve a presença de importantes figuras da academia, incluindo a reitora da Universidade de Vila Velha, Denise Endringer, e o diretor setorial técnico-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), Celso Alberto Saibel. Além disso, docentes, técnicos administrativos, alunos, amigos e familiares estiveram presentes para celebrar a trajetória da primeira pesquisadora nível 1A da instituição e do estado.
Um Compromisso com a Justiça Histórica
No discurso que fez durante a cerimônia, o reitor Eustáquio de Castro enfatizou que a proposta de incluir o retrato de Ethel na galeria reitoral vai além de uma simples formalidade burocrática. Para ele, trata-se de uma questão de justiça histórica e institucional. “A comunidade universitária, por meio de um processo democrático, elegeu Ethel Maciel como a reitora mais votada em uma lista tríplice. A sua não nomeação à época, devido a circunstâncias externas, não diminui a importância de sua eleição”, ressaltou Castro. Ele acrescentou que celebrar a trajetória da professora é reafirmar o compromisso da Ufes com a promoção da presença feminina em posições de poder.
A vice-reitora Sonia Lopes também fez uma análise crítica durante o evento, abordando a violência política de gênero que ainda persiste. Para ela, é fundamental nomear e reconhecer as práticas que marginalizam as mulheres na política, como tentativas de silenciamento e deslegitimação. “É impossível enfrentar desigualdades sem instituições democráticas robustas. O conhecimento crítico e a transformação social dependem de universidades livres de pressões externas e comprometidas com o interesse público”, argumentou Lopes.
Superando Desafios e Violências Institucionais
Emocionada, Maciel compartilhou as adversidades que vivenciou durante sua eleição como a primeira reitora da Ufes para o quadriênio 2020-2024. Entre os desafios, destacou o recurso ao Supremo Tribunal Federal, ao lado de outros reitores que enfrentaram a não nomeação, e o pedido de impeachment do então presidente Jair Bolsonaro, por sua gestão durante a pandemia de covid-19. “Esses episódios não foram isolados. Eles fazem parte de um contexto mais amplo de ataques às instituições e à ciência, culminando em tentativas de ruptura institucional”, explicou.
A professora enfatizou a importância de não se calar diante das injustiças. “Quando uma mulher é silenciada na política, não é apenas uma voz que se perde; a democracia se enfraquece. O silêncio institucional também se manifesta, e, por vezes, de forma estrondosa. A universidade não deve ser um instrumento do poder, mas sim um agente a serviço da sociedade e da democracia”, afirmou.
A Trajetória Acadêmica de Ethel Maciel
Ethel Leonor Noia Maciel nasceu em Baixo Guandu, no noroeste do Espírito Santo. Ela possui graduação em Enfermagem, mestrado em Enfermagem de Saúde Pública, doutorado em Saúde Coletiva/Epidemiologia e pós-doutorado em Epidemiologia. Atuou como vice-reitora da Ufes entre 2013 e 2020 e, entre 2023 e 2025, foi secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.
Em 2025, integrou o Grupo Estratégico da Organização Pan-Americana de Saúde para a Eliminação de Doenças e atualmente desenvolve pesquisas em Saúde Coletiva, focando em Epidemiologia e temas relacionados à saúde global e controle de epidemias. Além disso, é defensora da divulgação científica e atua no combate à desinformação. Recentemente, foi enviada especial da COP-30 para o setor Saúde e se destaca na luta pelas mulheres na ciência.
