Mensagens Expostas Revelam Conexões Perigosas
A frase “Estamos ricos” proferida por um guarda municipal, após sua parceira relatar um aumento nos repasses financeiros, é um dos pontos centrais nas mensagens que sustentam a acusação do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) sobre um esquema de corrupção no município de Vila Velha. A investigação abrange não apenas o guarda Iuri de Souza Silva, ex-comandante da corporação, mas também sua esposa, a advogada Bárbara Bastos Rodrigues, ambos presos na quarta-feira (25) e na quinta-feira (26) por suspeitas de envolvimento em atividades ilícitas, incluindo o repasse de ordens de dentro do sistema prisional e desvio de drogas.
De acordo com o MPES, outras mensagens corroboram a atuação do grupo. Em uma delas, a advogada expressa preocupação ao afirmar: “Eu vi uma parada aqui que me leva presa”. Outro diálogo revela um pedido direto: “Consulta pra mim aí”, evidenciando o uso de informações sigilosas para benefício próprio. Além disso, foram encontradas referências a bilhetes da facção, conhecidos como “catuques”, e orientações sobre como lidar com ocorrências policiais, como a cobrança de dinheiro pelos serviços prestados.
Operação Telic: Ação Conjunta Contra o Crime Organizado
A Operação Telic, realizada em três cidades do Espírito Santo, resultou na prisão de outros sete suspeitos, incluindo três advogados e três guardas municipais. A investigação busca desarticular uma rede de corrupção que liga a facção Primeiro Comando de Vitória (PCV) a agentes da segurança pública local. As prisões temporárias ocorreram entre os dias 25 e 26 de janeiro, durante a terceira fase da operação que já gerou preocupação nas autoridades.
As mensagens interceptadas durante a investigação demonstram como funcionava a colaboração entre Iuri e Bárbara, com a advogada frequentemente acionada para atuar em nome da facção. Em um dos diálogos, ela menciona: “O pai me ligou, disse que era para ir no Cleuton agora urgente”, o que sugere um elo direto com a liderança criminosa, Cleuton Gomes Pereira, conhecido como “Frajola”, atualmente preso em uma unidade de segurança máxima.
Comunicação e Corrupção: Bilhetes e Consultas Ilegais
As investigações revelam também a utilização frequente de bilhetes ou “catuques” para comunicação entre membros da facção. Em um diálogo, a advogada confirma o recebimento de um recado com um simples “Peguei”. Adicionalmente, a solicitação de consultas em sistemas oficiais de informação é frequente: “Tem alguma coisa contra o Beno?” e “Consulta pra mim aí” são exemplos que denotam um uso indevido de recursos da segurança pública.
Mensagens revelam ainda a interferência em investigações policiais. Um diálogo menciona: “Ele estava querendo dar um golpe no Frajola”, referindo-se a um aliado da facção que foi preso, o que levanta questões sobre o grau de conhecimento de Iuri sobre as operações da facção.
Desvio de Drogas e Processo Judicial
A denúncia apresentada pelo MPES também inclui alegações de desvio de drogas, onde parte das substâncias apreendidas poderia ter sido desviada antes mesmo do registro oficial. Os materiais e valores, segundo a investigação, estavam sob a responsabilidade dos agentes e seriam repassados para a venda direta.
Atualmente, Iuri de Souza Silva enfrenta acusações graves como violação de sigilo funcional, corrupção e tráfico de drogas. Por outro lado, Bárbara é vista como a mensageira da facção, facilitando a comunicação entre os presos e o mundo externo. Durante uma audiência de custódia realizada na sexta-feira (27), a Justiça decidiu pela manutenção da prisão dos acusados.
A Repercussão do Caso e a Resposta das Autoridades
A Guarda Municipal de Vila Velha se manifestou, afirmando que está colaborando com as investigações e instaurou um procedimento interno para apurar os fatos. O Ministério Público, por sua vez, informou que a apuração continua em andamento, mas optou por não se manifestar detalhadamente neste momento.
Os envolvidos, incluindo o guarda Iuri Silva, que foi comandante da Guarda em 2020, e a advogada Bárbara, já haviam sido alvo de um mandado de busca em agosto do ano passado, na primeira fase da operação. Nesse contexto, o narcotráfico continua a ser uma questão delicada na Grande Terra Vermelha, uma região marcada por uma sequência de crimes violentos, incluindo pelo menos dez homicídios entre fevereiro e março.
