Cooperativismo e associativismo impulsionam a produção de banana em Cariacica
Em Cariacica, município da Grande Vitória conhecido principalmente pela indústria e logística, a banana tem papel central na economia rural local. Nas encostas e vales úmidos da região, esta fruta ganha múltiplas formas: desde a banana fresca destinada a mercados interestaduais até doces artesanais, chips crocantes e farinha nutritiva. Mais do que um produto agrícola, ela se tornou a base da sobrevivência para centenas de famílias camponesas, que encontram no associativismo e no cooperativismo uma estratégia para driblar as dificuldades do mercado tradicional.
Cooperativa de Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC-ES): uma resposta coletiva à crise
Fundada em junho de 2017, a Cooperativa de Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC-ES) surgiu como resposta à grave crise enfrentada pela bananicultura capixaba, marcada por preços baixos e problemas logísticos. Naquele momento, muitos agricultores viam suas plantações apodrecerem e chegaram até a abandonar suas terras. A união de 20 agricultores pioneiros formou a base da cooperativa, que hoje reúne 423 cooperados, sendo cerca de 60% deles residentes em Cariacica. A cooperativa abastece desde a alimentação escolar pública até mercados em São Paulo e Rio de Janeiro, fortalecendo a cadeia produtiva local.
No Vale do Sabão, região interiorana de Cariacica, propriedades associadas cultivam entre 12 mil e 15 mil pés de banana sob manejo cuidadoso. A produção anual estimada é de cerca de 3 mil caixas de 20 quilos de banana-prata por unidade produtiva, com mais de 90% da safra direcionada para os centros de classificação da cooperativa.
O papel do cooperativismo na ampliação da renda e acesso a mercados institucionais
Davi Dutra de Barcelos, líder da CAFC-ES e da União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes-ES), destaca que a cooperativa fortalece os agricultores familiares ao permitir negociações mais justas e acesso a programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Segundo ele, a cooperação oferece ao produtor familiar gestão, logística e previsibilidade, elementos essenciais para evitar a dependência de intermediários.
A escala proporcionada pelo cooperativismo também permite a padronização dos frutos e a criação de rotas logísticas eficientes, fundamentais para superar os desafios impostos pelo relevo montanhoso da região.
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Associativismo feminino transforma resíduos em renda e autonomia
Enquanto a cooperativa sustenta o volume e a logística, o associativismo feminino atua na esfera comunitária e doméstica. Em comunidades rurais de Cachoeirinha e Sabão, a Associação de Mulheres Rurais (Asmurcas) desenvolveu uma agroindústria artesanal que aproveita bananas rejeitadas pelo mercado, como frutos menores ou danificados. A produção inclui doces caseiros, chips salgados feitos com banana-nanica e banana-passa, todos vendidos sob encomenda com demanda garantida.
Na Associação de Produtores Rurais Rio do Meio e Fumaça (Apromef), mulheres lideram a produção artesanal de pães, bolos, broas e tapiocas, estabelecendo parcerias com comércio local para revenda. Essa iniciativa movimenta a economia da comunidade e valoriza a diversidade dos produtos regionais.
Autonomia econômica feminina e mudanças na estrutura rural
O sociólogo rural André Augusto Michelato Ghizelini, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), destaca que o beneficiamento artesanal da banana gera uma autonomia econômica significativa para as mulheres do campo. Tradicionalmente responsáveis pelo trabalho não remunerado, as camponesas passam a assumir o controle financeiro da produção, conquistando status e voz nas decisões familiares e comunitárias.
Ghizelini alerta, porém, para a necessidade do cooperativismo na produção em escala. A agregação de valor na fruta processada é limitada, e o sucesso comercial depende de volume e infraestrutura, que só cooperativas conseguem oferecer. Assim, o cooperativismo é a única alternativa viável para pequenos produtores manterem sua atividade.
Panorama da bananicultura capixaba e relevância de Cariacica
O Espírito Santo cultiva banana em 76 dos 78 municípios, com produção total de 427,5 mil toneladas e área colhida de 29,3 mil hectares, segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). A safra movimenta R$ 868,2 milhões, equivalente a 2,6% do valor total das lavouras estaduais, com predominância da banana-prata, terra e cavendish (nanica).
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Embora não lidere em volume, Cariacica se destaca pela adoção de sistemas agroecológicos e pela força do cooperativismo. Jorge Monteiro, cooperado da CAFC-ES e assessor da Unicafes, ressalta a importância das compras públicas, que garantem alimentos saudáveis e nutritivos para as escolas e promovem um ciclo virtuoso entre produtores e consumidores.
Ciência e assistência técnica fortalecem sustentabilidade e qualidade
O Incaper aplica pesquisas e assistência técnica para diversificar cultivares e combater doenças. Cerca de 25 cultivares diferentes são manejadas na região, ampliando a resistência ecológica dos pomares. Destacam-se pesquisas para nova cultivar Nanica/Nanicão, com lançamento previsto para o próximo ano agrícola, e produção de mudas micropropagadas livres de pragas, distribuídas para municípios como Presidente Kennedy.
O Banco Ativo de Germoplasma (BAG) do Incaper, presente na região sul, mantém mais de 30 genótipos essenciais para cruzamentos que combatem enfermidades como Mal-do-Panamá e Sigatoka amarela e negra.
Na assistência de campo, o extensionista Alciro Lamão Lazzarini orienta sobre manejo agroecológico, adubação e controle de pragas como broca-da-bananeira, tripes e nematoides. Ele destaca que a colheita e o transporte em áreas de serra são momentos críticos para preservar a qualidade da fruta, evitando perdas que impactam o mercado.
União entre técnica, trabalho feminino e cooperativismo garante futuro da bananicultura
O conjunto formado pela pesquisa agronômica, o protagonismo feminino nas agroindústrias comunitárias e a logística das cooperativas forma a base sólida da bananicultura em Cariacica. A fruta deixa de ser apenas um símbolo cultural e se consolida como ferramenta de emancipação social, autonomia feminina e permanência digna das famílias camponesas em sua terra.
