A importância da validação no diagnóstico da fibromialgia
Este artigo é uma contribuição do cientista André Pontes-Silva, que gentilmente aceitou o convite para discutir saúde e ciência de maneira honesta e acessível.
Nossas conversas, sempre permeadas por ciência e filosofia, resultaram em reflexões que desejamos compartilhar com você.
Quando a dor persiste
Em uma ocasião, uma jovem de doze anos caiu durante um intervalo escolar. Um acidente trivial, causado por passos apressados e risadas, resultou em apenas uma pequena queda. Sem cortes ou fraturas, apenas um pouco de poeira no uniforme e uma dor que deveria logo se dissipar. Contudo, essa dor não foi passageira; ela se estabeleceu.
Com o passar do tempo, a dor deixou de ser visitante para se tornar uma residente permanente. Inicialmente localizada, ela percorreu o corpo da menina, subindo pelas costas, afetando o pescoço, pressionando as têmporas e descendo pelas pernas. Todos os exames realizados revelaram resultados normais.
Os médicos apresentaram diversas explicações: ansiedade, hipersensibilidade, somatização, e até que era “coisa da idade” ou “coisa da cabeça”. Contudo, ninguém disse o que ela realmente precisava ouvir: “eu acredito em você”.
O peso da descrença
Com o tempo, a jovem passou por uma série de tratamentos que resultaram em tentativas frustradas. Além disso, enfrentou palavras que ferem mais do que a própria dor. O diagnóstico de fibromialgia surgiu, trazendo a esperança de uma explicação, mas se tornou apenas uma etiqueta – sem orientação ou solução.
Décadas depois, ela encontrou alguém disposto a ouvi-la, a conversar e a ajudar na reconstrução de sua vida. Foi nesse momento que percebeu que a dor não precisava desaparecer para que sua vida pudesse recomeçar.
Uma realidade dolorosa
Essa narrativa não é uma ficção. É o relato de Chiara Gusmini, publicado no British Journal of Sports Medicine, que ilustra como falhas na comunicação e na formação profissional resultam em anos de sofrimento desnecessário.
A história de Chiara não é única. Ela representa milhares de pessoas que lidam com dores persistentes e, além disso, enfrentam a descrença e interpretações que não ajudam a compreender sua condição. Aqui, ciência e vivência se conectam.
Atualmente, sabemos que, com os avanços na ciência da dor, muitos quadros de dor crônica, como a fibromialgia, não estão associados a lesões físicas. O corpo não está “quebrado”, mas sim com um sistema de alarme excessivamente sensível.
É semelhante a um semáforo que permanece vermelho incessantemente, mesmo sem carros se aproximando, sinalizando perigo sem razão. O problema não reside na rua, mas no sinal. Assim é a dor nociplástica: o sistema nervoso interpreta estímulos comuns como ameaças, mesmo quando não há dano real.
O papel da comunicação e do acolhimento
Infelizmente, esse entendimento científico ainda é pouco difundido nos consultórios. Quando exames de imagem não revelam anormalidades, muitos pacientes escutam que “não há nada ali”, como se a ausência de lesão significasse a inexistência de dor. Essa visão, já superada, é prejudicial.
A falta de preparo dos profissionais de saúde resulta em diagnósticos tardios e na tendência de deslegitimar a dor, especialmente entre as mulheres, que enfrentam um estigma maior ao relatar suas dores. Isso reflete antigos modelos biomédicos e uma falta de familiaridade com os modernos mecanismos da dor.
Diretrizes inovadoras na abordagem da dor
Por outro lado, as diretrizes internacionais mais recentes apontam para abordagens eficazes. Elas defendem um cuidado centrado na pessoa, que vai além dos sintomas, promovendo educação sobre dor, exercícios graduais e estratégias de autogerenciamento.
A educação em dor mostrou resultados significativos ao reduzir o medo e a catastrofização, além de desmistificar a ideia de que “qualquer esforço piora tudo”. Exercícios estruturados, tanto aeróbicos quanto de força, têm demonstrado resultados positivos na melhoria da dor e na capacidade funcional de pessoas com fibromialgia.
O poder da escuta na recuperação
Em uma conversa, a cinesiologista Mariana Schamas me comentou: “Às vezes, a pessoa não precisa de um novo remédio, mas de ser ouvida.” Concordei: “E validada. Isso pode aliviar metade do peso que ela carrega.”
A comunicação clínica, muitas vezes subestimada, é crucial. A forma como o profissional valida ou deslegitima a dor de um paciente pode ser determinante para o resultado do tratamento. Pesquisas recentes indicam que a validação empática melhora a adesão ao tratamento e reduz o sofrimento.
Como a história de Chiara exemplifica, não se tratou apenas de uma falha técnica, mas de um descompasso humano. Profissionais de saúde precisam reconhecer suas lacunas e abandonar explicações simplistas. É essencial que se atualizem sobre as novas evidências científicas e aprimorem suas habilidades de comunicação.
Integrando ciência e empatia no cuidado
A ignorância clínica não resulta de falta de inteligência, mas sim da desconexão entre a ciência atual e a prática cotidiana. Essa distância pode custar caro, afetando a qualidade de vida dos pacientes por anos a fio. O relato de Chiara serve como alerta e convite: quando o conhecimento se alia à escuta, vidas são transformadas.
Mariana Schamas-Esposel, cinesiologista pela California State University e especialista na área, e André Pontes-Silva, um renomado cientista brasileiro com vasta produção acadêmica, são vozes importantes nesse debate sobre fibromialgia e dor crônica.
