Histórias Inéditas de Leonel Brizola
Embora Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, fosse notoriamente avesso a depoimentos, ele compartilhou sua trajetória de vida em gravações que estavam arquivadas por décadas. Essas histórias, que abrangem desde sua infância até sua entrada na política, são reveladas pela primeira vez em um livro intitulado “Leonel Brizola por ele mesmo – Documento inédito”, publicado pela editora Insular. A obra foi organizada por sua neta, Juliana Brizola, e pela pesquisadora e jornalista Rejane Guerra.
As gravações, que totalizam quatro horas e 20 minutos, fazem parte de um projeto de história oral iniciado em 1996 pela Câmara Municipal de Carazinho, cidade natal de Brizola. Após anos esquecidas, agora, essas memórias vêm à tona, revelando detalhes que até então eram desconhecidos do público.
Durante os relatos, Brizola compartilha aspectos de sua infância, incluindo seu trabalho em um açougue e as dificuldades enfrentadas para estudar. Ele mencionou que, sem recursos financeiros, invadia o internato da escola, sonhando em estudar e, frequentemente, era expulso pela direção. “Eu adorava olhar aquilo ali. Às vezes invadia a escola e me botavam pra fora. Eu ia distribuir carne”, disse, relembrando momentos marcantes de sua juventude.
O ex-governador, que enfrentou uma saga para se matricular em uma escola técnica aos 14 anos, destacou que não possuía certidão de nascimento e nem dinheiro para o enxoval na época. Ele revelou que a experiência o levou a Porto Alegre, onde passou quase um ano vivendo nas ruas e trabalhando em condições difíceis.
Ao ingressar na universidade, Brizola se deparou com uma intensa polarização política entre a esquerda e a direita, afirmando que nunca se identificou com o comunismo. “Os estudantes estavam divididos em dois grupos, a metade era do Partido Comunista, todo aparelhado. Eu fazia parte de um grupo de uns 15. Nós éramos diferentes, porque nós trabalhávamos”, contou o ex-governador, refletindo sobre a dinâmica política da época.
O depoimento também destaca um momento crucial na vida de Brizola, quando um grupo de operários organizou uma passeata em defesa dos direitos trabalhistas. A participação do então jovem político nessa manifestação foi fundamental para seu engajamento no trabalhismo. “Foi uma experiência que abriu muitas portas para mim”, enfatizou.
A descoberta do depoimento de Brizola por sua neta, Juliana, ocorreu quando recebeu um caderno com a transcrição da conversa, enviada pelo ex-deputado Romeu Barleze. Com isso, começou a busca pelas fitas originais, que foram localizadas por Rejane com a ajuda do jornalista Nélson Rolim, em Santa Catarina, onde as gravações foram restauradas recentemente.
“Foi muito emocionante escutar o meu avô Leonel Brizola dando esse depoimento. A maioria das histórias eu desconhecia”, afirmou Juliana, expressando sua surpresa ao ouvir relatos tão pessoais e significativos.
Rejane Guerra também compartilhou sua experiência na busca pelas fitas: “Vasculhei Carazinho e São Borja até chegar às fitas em Santa Catarina. Tinha esperança de conseguir restaurar pelo menos uma parte.”
O livro, que conta com um prefácio de Roberto D’Avila e uma apresentação do colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco, será lançado em eventos programados para março e abril, começando pela Câmara de Porto Alegre no dia 23 e na Câmara de Carazinho no dia 25. No Rio de Janeiro, o lançamento ocorrerá na Travessa do Leblon no dia 8 de abril. Essa obra promete dar aos leitores uma nova perspectiva sobre a vida e a trajetória de um dos mais influentes políticos do Brasil.
