Uma Celebração Cultural em Farroupilha
O povo cigano é rico em tradições e costumes, porém não há uma definição única sobre sua identidade. “Cada família tem suas próprias particularidades e práticas”, explica Sharlys Jardim da Silva Santos, psicólogo e professor universitário, ao refletir sobre o que significa ser cigano.
Na última semana, um casamento em Farroupilha atraiu a atenção de cerca de 1,5 mil pessoas, gerando discussões nas redes sociais sobre a vida das comunidades ciganas, que frequentemente mantêm suas tradições em sigilo.
O evento de celebração trouxe à tona questões sobre como as famílias ciganas se organizam. Embora alguns casamentos anteriormente exigissem arranjos entre primos, essa prática tem mudado. Além disso, a ideia de que todos vivem em tendas e mudam de cidade anualmente é uma simplificação que não reflete a realidade atual.
A Impermanência e a Identidade Cigana
Sharlys destaca que um dos traços mais marcantes da identidade cigana é a impermanência. “Somos influenciados por diversas colonizações. Por exemplo, temos uma relação muito forte com Nossa Senhora Aparecida”, comenta. Ele também enfatiza a importância dos ofícios dentro da cultura cigana, que são frequentemente comerciantes e valorizam a comunicação. Embora algumas famílias que ele conhece tenham uma residência fixa, Sharlys admite que sua própria trajetória o levou a se mudar várias vezes até encontrar um lugar estável. “É algo que sentimos; sabemos quando é hora de mudar”, reflete.
Sharlys é descendente da etnia Calon, cujas raízes estão em Portugal e Espanha. Atualmente, ele está defendendo sua dissertação de mestrado, que explora a construção da identidade cigana, levando em consideração também os costumes dos Rons.
A Difusão da Cultura Cigana nas Redes Sociais
Vitor Caldeira, morador de Goiânia e pertencente ao grupo Rom, tem se dedicado a compartilhar as tradições ciganas através de suas redes sociais. Em seu perfil, que conta com 245 mil seguidores no Instagram e 650 mil no TikTok, ele busca desmistificar a cultura cigana e acolher a curiosidade das pessoas. “Ciganos têm um radar para se reconhecer, seja pelo jeito de falar ou andar. Hoje, a maioria dos meus seguidores é de gadjés, pessoas que não são ciganas. Busco explicar e acolher, mesmo diante de comentários negativos”, relata.
Para Vitor, eventos como o casamento em Farroupilha são momentos ideais para vivenciar as tradições: “Na comunidade cigana, a fartura é sinônimo de sorte. Mostrar isso para os outros é uma maneira de demonstrar nossa prosperidade”.
Preservação Cultural em Caxias do Sul
Em Caxias do Sul, o casal Márcio Allend e Adriana Silva promove um Centro Cultural dedicado à preservação das tradições ciganas, especialmente através da dança. Eles acreditam que a dança e a gastronomia são fundamentais para a manutenção da cultura. “A resiliência do povo cigano está ligada à formação de grupos; nossas famílias sempre se uniram para sobreviver e se adaptar às circunstâncias”, afirmam.
Essas comunidades desempenhavam funções variadas, como cobradores de impostos, marceneiros e carpinteiros, preenchendo lacunas que outras pessoas não queriam ocupar. Os símbolos da cultura cigana, como a fogueira e a roda da carroça, têm um significado profundo e ajudam a preservar a identidade ancestral.
Dia do Cigano: Uma Celebração Nacional
Desde 2006, o dia 24 de maio é marcado por comemorações no Brasil em honra ao Dia do Cigano, celebrando suas contribuições à cultura brasileira. Esta data não só ressalta a riqueza da tradição cigana, mas também promove um maior entendimento e respeito por uma cultura que, embora muitas vezes mal interpretada, é vibrante e cheia de vida.
