Reflexões do rapper sobre o significado esvaziado do termo ‘cultura’
Em uma participação no podcast Lost In Vegas, J. Cole expressou sua insatisfação com a maneira como a palavra ‘cultura’ tem sido utilizada no universo do hip hop. Para o rapper, o termo, que outrora simbolizava identidade e pertencimento, tornou-se um mero artifício de marketing e manipulação algorítmica. “É uma palavra vazia agora”, afirmou Cole, ressaltando que o que antes representava algo profundo agora se resume a uma estratégia para gerar hype, sem significado verdadeiro. O que muitos referem como ‘cultura’ é, segundo ele, algo que foi comprado através de campanhas publicitárias, bots ou, simplesmente, o resultado de algoritmos.
Com um olhar crítico, Cole abordou como a internet alterou a dinâmica da circulação cultural. Expressões que emergem de comunidades afro-americanas estão sendo rapidamente absorvidas e reproduzidas em escala global em questão de horas, mas muitas vezes sem o contexto e a origem que as tornaram significativas. “Por causa da ‘cultura’, que é, na verdade, apenas a economia da internet, uma frase não permanece na boca de mulheres negras por mais de um ou dois dias antes de já ter sido capturada”, observou ele.
A entrevista de Cole ocorre em um momento significativo, com o lançamento de seu sétimo álbum de estúdio, intitulado The Fall-Off, previsto para 2026. A turnê mundial do disco começará em julho, com apresentações na América do Norte, Europa, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, encerrando em dezembro. A pré-venda dos ingressos já quebrou recordes, com 800 mil entradas comercializadas, estabelecendo-se como a maior pré-venda de uma turnê de hip hop em 18 mercados simultaneamente. O sucesso resultou na ampliação da agenda de shows, que passou de 54 para 73 datas, com a adição de 19 novas apresentações em arenas renomadas.
Antes de iniciar essa grande turnê, J. Cole tem percorrido os Estados Unidos com uma iniciativa chamada Trunk Sale Tour, que envolve a venda de CDs diretamente do porta-malas de seu antigo Honda Civic, uma forma inusitada de se conectar com os fãs.
Sobre The Fall-Off: Uma Viagem Pessoal
The Fall-Off apresenta um conceito devastador: ele reflete duas viagens significativas que Cole realizou para Fayetteville, Carolina do Norte, sua cidade natal. A primeira ocorreu quando ele tinha 29 anos, recém-chegado de Nova York, ainda com a ambição pulsante. A segunda, aos 39, já casado e pai de dois filhos, carrega uma bagagem emocional adquirida ao longo de uma década no topo da indústria musical. Cada uma dessas experiências deu origem a um disco (Disco 29 e Disco 39), que servem como retratos de um homem que, embora retorne para casa, não é mais a mesma pessoa e percebe a difícil realidade de que não se consegue viver no lugar que te formou quando a fama altera sua essência.
O tema central do álbum reflete a luta de Cole por reconexão com Fayetteville — carinhosamente chamada de “the Ville” — um vínculo que se foi ao longo do caminho. Essa desconexão não surge por falta de amor, mas pela transformação que o sucesso provoca. Ao retornar, ele percebe que os amigos já não vivem a mesma realidade que ele. Muitos estão presos, falecidos ou olham para ele com a perspectiva de uma celebridade, em vez de verem Jermaine. Assim, ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa pesar cada movimento por medo de violência ou de se tornar uma manchete. Essa tensão de querer pertencer, mas não conseguir, é o que torna a narrativa de The Fall-Off tão poderosa e autêntica.
Considerado um clássico instantâneo, The Fall-Off é quase perfeito. Ele se junta a outros marcos da carreira de J. Cole, como 2014 Forest Hills Drive e o conceitual 4 Your Eyez Only, formando uma tríade definitiva. O álbum é ambicioso e denso, repleto de camadas a serem exploradas. Cada nova audição revela detalhes ocultos e conexões inesperadas entre faixas que, à primeira vista, parecem desconectadas. A decisão de Cole de se distanciar da rivalidade entre Kendrick e Drake pode não ter agradado a todos, mas foi benéfica para ele, permitindo que focasse no que realmente faz bem: o rap introspectivo, honesto e tecnicamente impecável, que busca reconciliar com sua própria imagem. Embora não acredite que The Fall-Off seja seu último projeto, se for, indiscutivelmente temos diante de nós uma obra destinada a envelhecer com dignidade, sendo revisitada, estudada e referenciada ao longo dos anos. Uma jornada de dez anos que certamente valeu a pena.
