Como a Crise Geopolítica Afeta o Agronegócio Brasileiro
O conflito em andamento no Oriente Médio tem provocado desafios significativos para o agronegócio brasileiro, um setor vital para a exportação de produtos como soja, milho, açúcar e carnes. Alê Delara, diretor da Pine Agronegócios, analisa os efeitos sobre custos de produção, logística e margens em uma entrevista realizada neste domingo.
De acordo com Delara, “tudo que está relacionado a custos de produção, independentemente da cultura, pode ser impactado pela importância tanto do Irã quanto da região”. Ele destaca que aproximadamente 45% do enxofre comercializado globalmente e 30% da ureia passam pelo Estreito de Hormuz, um canal estratégico que está sendo afetado pela instabilidade. O Brasil, por exemplo, importa cerca de 15% da ureia que utiliza do Irã, além de quase 20% da amônia, insumos cruciais para a fabricação de fertilizantes nitrogenados.
“Além disso, Israel, que é o quarto maior fornecedor de cloreto de potássio (KCL), um insumo amplamente utilizado na agricultura de soja, também sofre consequências. Ataques em Israel podem resultar em aumentos de preços”, pondera Delara.
Os efeitos do conflito não se restringem apenas ao aumento dos preços de insumos. O especialista também aborda a questão logística: “os fretes estão tendendo a disparar, e os custos com seguros para embarcações sofrerão um aumento substancial. Isso, por sua vez, impacta no preço de aquisição de produtos essenciais”. Ele chama a atenção para o fato de que vários navios já estão ancorados no Golfo Pérsico e na costa de Omã, refletindo um aumento na percepção de risco entre os operadores do setor.
Exportações em Risco: O Papel do Irã e do Oriente Médio
As consequências do conflito se estendem às exportações brasileiras, onde o Irã se destaca como o principal importador de milho, consumindo cerca de 25% do volume exportado pelo Brasil. Além disso, carne bovina, farelo de soja e óleo de soja também têm o Oriente Médio como um mercado estratégico. “Todos os fertilizantes poderão sentir esses impactos”, enfatiza Delara, sugerindo que o estado atual do conflito pode reverberar por toda a cadeia produtiva.
No setor varejista, as consequências podem se manifestar em fases distintas: inicialmente, a maior oferta interna de proteínas poderia pressionar os preços para baixo; de forma oposta, a diminuição da produção poderia levar a uma alta nos preços à medida que a situação se agrava. A variação do câmbio, por sua vez, também afeta custos e importações, podendo impactar, de maneira mais ampla, a inflação e as decisões de política monetária do país.
Delara finaliza suas considerações afirmando que, apesar da incerteza quanto à duração do conflito, os impactos já estão sendo sentidos nos custos de produção, na logística e no comércio internacional. Portanto, é crucial um acompanhamento minucioso do setor agro nos próximos meses, uma vez que as repercussões deste cenário podem afetar a economia em diversas frentes.
