Desempenho Notável da Cajucultura Brasileira
No ano de 2024, o Brasil alcançou um marco histórico na produção de castanha de caju, colhendo impressionantes 161.014 toneladas, segundo dados do IBGE. Este resultado não apenas representa um crescimento de 38% em comparação ao ano anterior, mas também evidencia a importância estratégica da cajucultura para a economia nordestina. Apesar desse avanço, o setor ainda opera em um modelo semiextrativista que se caracteriza por baixa produtividade e grande variabilidade genética, o que torna difícil alcançar ganhos de escala. Para enfrentar esses desafios e fomentar uma transição para um modelo mais tecnificado, a Embrapa Agroindústria Tropical introduziu a nova cultivar BRS 805, focando na renovação dos pomares, sustentabilidade e aumento da rentabilidade.
Produção Regional e Resultados Promissores
O estado do Ceará, responsável por se tornar o maior produtor nacional, contribuiu com 101.930 toneladas dessa produção em 2024, representando um aumento de 61%. O Piauí segue com 26.172 toneladas, um crescimento de 25% em relação a 2023, enquanto o Rio Grande do Norte manteve uma média estável de 21 mil toneladas. A produtividade média nacional subiu de 271 para 358 kg por hectare, refletindo um aumento de 30%, ainda que seja inferior ao ideal defendido por especialistas em cajucultura de alta performance.
Clone BRS 805: Uma Revolução na Plantação de Cajus
O novo clone BRS 805 resulta de uma pesquisa que teve início na década de 1990, onde o material genético original foi obtido em Pio IX (PI), após experimentos focados na produção de progênies. A cultivar foi clonada e submetida a testes no Campo Experimental de Pacajus (CE), com destaque para os municípios de Pacajus, Cruz e Itapipoca, que se destacam entre os maiores polos de produção em 2024. O BRS 805 demonstrou produtividade média de 1.800 kg/ha de castanhas entre o quinto e o sétimo ano, o que é o dobro da cultivar CCP 76, atualmente a mais plantada no Brasil. O clone também apresentou uma produção de pedúnculo de 23,8 toneladas por hectare, superando o clone de referência.
Benefícios da Nova Cultivar
Este clone apresenta um porte intermediário, variando entre 3 a 4 metros de altura e até 7 metros de envergadura. Sua copa em formato de taça compacta favorece o uso de mecanização agrícola, reduzindo perdas por quebra de ramos e aumentando a eficiência do manejo. O BRS 805 mostrou resistência a doenças como o mofo-preto, antracnose e septoria, que comprometem a produtividade em sistemas tradicionais. Além disso, a cultivar é mais tolerante ao oídio, uma das enfermidades mais prejudiciais à cajucultura. De acordo com o pesquisador Marlon Valentim, essas qualidades possibilitam uma menor utilização de defensivos, resultando em redução de custos e maior segurança alimentar.
Acesso e Adoção do Novo Clone
O clone BRS 805 será disponibilizado inicialmente para viveiristas que possuem registro no Renasem, por meio de um edital público com lançamento previsto para 12 de janeiro de 2026. Isso reforça o compromisso da Embrapa em ampliar o acesso à tecnologia. As castanhas do novo clone têm massa média de 10 gramas, equivalentes às do BRS 226, e as amêndoas são classificadas como tipo LW ou W210, com entre 181 e 210 amêndoas por libra-peso, um padrão valorizado pela indústria de processamento. O rendimento industrial médio é de 23,2%.
Importância do Cajueiro no Semiárido
O cajueiro destaca-se como uma das poucas frutíferas que se adaptam a regiões com precipitação anual entre 600 e 800 mm, o que permite sua produção mesmo em anos de seca, sem a necessidade de irrigação. Clones como BRS 805, BRS 226 e Embrapa 51, desenvolvidos para solos arenosos e ácidos, demonstraram resistência hídrica durante a última década, garantindo estabilidade produtiva em áreas com elevado déficit hídrico. José Roberto Vieira, chefe de Pesquisa da Embrapa Agroindústria Tropical, afirma que a cajucultura está em um momento decisivo: “Temos que optar entre manter um modelo de baixa produtividade ou migrar para um modelo tecnificado, que oferece rendimentos superiores a 1.500 kg/ha, maior uniformidade das castanhas e um aproveitamento de pedúnculo acima de 50%.”
Estratégias para a Diversificação e Segurança Fitossanitária
O lançamento do BRS 805 também reforça a orientação da Embrapa para diversificação dos pomares, uma estratégia que visa minimizar o impacto de novas pragas e doenças. Segundo o pesquisador Dheyne Melo, que liderou o desenvolvimento do clone, “o produtor que diversifica conta com materiais mais tolerantes e evita perdas totais caso um novo patógeno se instale na região.” Embora o clone CCP 76 continue predominando na produção de caju de mesa, sua menor resistência e rendimentos justificam uma substituição gradual em áreas que buscam uma maior tecnificação.
Atualmente, o Nordeste é responsável por mais de 95% da produção nacional de castanha-de-caju. Além do Ceará, o Piauí e o Rio Grande do Norte têm uma forte presença de pequenos e médios produtores, sendo essa cultura uma fonte importante de renda durante a entressafra da quadra invernosa, contribuindo para a formação de uma classe média rural no semiárido. Em 2024, os municípios de Bela Cruz, Beberibe, Ocara, Cascavel e Aracati lideraram a produção no Ceará, locais onde o clone BRS 805 foi testado com sucesso.
