Desempenho desigual no setor agrícola
O agronegócio brasileiro está prestes a enfrentar um cenário desafiador em 2026, com uma previsão de receita total do setor encolhendo em até R$ 68 bilhões. Apesar de uma possível expansão na produção, a queda nos preços das commodities agrícolas é a principal responsável por essa retração. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) revelou, em sua estimativa oficial, que o Valor Bruto da Produção (VBP) deve alcançar R$ 1,39 trilhão, refletindo uma diminuição de 4,8% em comparação ao ano anterior. Dentro desse montante, a agricultura deverá representar R$ 903,5 bilhões, o que traduz uma queda de 5,9%. Isso significa que aproximadamente R$ 68 bilhões a menos circularão no setor em relação ao ano anterior, um valor superior ao PIB anual de muitos estados que dependem do agronegócio.
Além da queda nos preços, o clima também deve influenciar negativamente os resultados. Diversos fatores estruturais têm contribuído para este clima de incerteza no agro.
Causas da diminuição no faturamento do agronegócio
O fenômeno observado no agronegócio em 2026, onde a produção pode ser maior enquanto o faturamento diminui, está intimamente ligado à forma como o VBP é calculado. Esse indicador não considera apenas o volume produzido; ele leva em conta a receita total, que é o resultado da multiplicação de quantidade e preço. Assim, se os preços caírem mais rapidamente do que a produção aumentar, o faturamento inevitavelmente diminuirá, mesmo que a safra seja maior.
A maioria das commodities agrícolas enfrenta uma pressão de preços para baixo, com exceção de alguns produtos, como caroço de algodão e feijão. Os fatores que contribuem para essa tendência de queda incluem uma supersafra global, onde países como Brasil, Estados Unidos e Argentina apresentaram recordes de produção, e uma desaceleração na demanda da China, principal importador mundial.
Outro elemento a ser considerado é a valorização do real, que reduz a receita em moeda local para os produtores exportadores. Portanto, ainda que a colheita seja maior, os agricultores receberão menos por tonelada.
Desafios específicos para o milho em 2026
O cenário mais alarmante dentro do agronegócio se concentra no milho, que deve sofrer uma queda tanto na produção quanto no preço. As previsões são de um recuo de 6,9% no VBP, 4,9% nos preços e 2,05% na produção. O principal fator para essa situação é o atraso no plantio da safrinha, decorrente do atraso na colheita da soja. Em estados como Mato Grosso, o plantio já ultrapassou a janela ideal, aumentando o risco de déficit hídrico para a cultura. O resultado? Menos volume e preços mais baixos, uma combinação desastrosa para o produtor.
Influência do milho na cadeia alimentar
O milho, além de ser uma commodity agrícola, é um insumo crucial na cadeia de produção de proteína animal. Reduções na produção e aumentos de custos podem impactar diretamente setores como:
- Avicultura
- Suinocultura
- Produção de ovos
Esse efeito acaba refletindo nos preços que os consumidores finais pagam.
Queda da cana-de-açúcar e pressão no etanol
A cana-de-açúcar não está imune a essa crise, com o VBP previsto para recuar 5,6%. A queda nos preços do açúcar é uma realidade, bem como uma leve alta na produção, de 0,37%. A recuperação da produção em países como Índia e Tailândia resultou em um excesso de oferta global. O etanol, por sua vez, também enfrenta pressões de preço, reduzindo as margens de lucro das usinas.
Soja e café: situações contrastantes
No que tange à soja, as perspectivas são de um crescimento limitado, com uma possível expansão na produção de 3,79%, mas uma queda nos preços de 3%. O VBP deve crescer apenas 0,6%, refletindo uma realidade onde o produtor pode colher mais, mas não necessariamente ganhar mais.
Por outro lado, o café arábica aparece como uma exceção otimista, com um crescimento no VBP estimado em 10,4%. Isso se dá por um aumento significativo de 23,29% na produção, apesar de uma queda nos preços de 10,5%. A dinâmica da safra bienal favorável à cultura do café é um fator que contribui para esse resultado.
Desafios climáticos e o impacto do El Niño
A questão climática é uma variável que pode levar a uma deterioração ainda maior das projeções econômicas para o agronegócio. A expectativa de um fenômeno de El Niño no segundo semestre de 2026 levanta preocupações sobre atrasos no início das chuvas na Região Centro-Oeste e irregularidades hídricas em áreas como Matopiba, o que pode afetar diretamente o plantio da safra 2026/2027.
Conforme as previsões da CNA, os eventos climáticos ao longo do ano podem mudar radicalmente o cenário de perdas no setor. Portanto, o que se projeta como uma perda de R$ 68 bilhões pode se agravar caso as condições climáticas não sejam favoráveis. O clima pode não estar diretamente nas contas financeiras, mas é ele quem dita a produção, e a produção, por sua vez, é que define o faturamento no final das contas.
Uma nova realidade para o agronegócio brasileiro
O ano de 2026 marca uma nova realidade para o agronegócio: produzir mais não necessariamente gera mais renda. Com margens apertadas, preços pressionados e riscos climáticos em alta, o setor rural brasileiro se prepara para um período de ajuste. A interação entre fatores globais de mercado e condições climáticas será determinante para saber se essa queda é apenas um piso temporário ou se faz parte de um ciclo mais longo de reequilíbrio no agronegócio.
