Medidas de Salvaguarda: O que são e como funcionam
No cenário do comércio exterior, um termo técnico ganhou destaque e gerou preocupação entre os exportadores brasileiros: as Medidas de Salvaguarda. Esse conceito, que estava limitado a discussões acadêmicas, tornou-se central nas recentes tensões comerciais envolvendo potências como a China e a União Europeia, trazendo repercussões diretas para a balança comercial do Brasil, especialmente no setor pecuário.
Mas por que esse mecanismo foi acionado agora e quais são suas implicações concretas para o produtor rural?
A salvaguarda é uma ferramenta regulatória estabelecida pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995, que permite a um país elevar tarifas ou impor limites temporários na importação de produtos específicos. O objetivo é proteger a indústria local de uma invasão súbita de produtos estrangeiros que possa prejudicar seu funcionamento.
Como funciona a Salvaguarda na Prática
Para que as Medidas de Salvaguarda sejam aplicadas, é necessário que haja uma evidência técnica de que a importação de um determinado produto está causando danos à indústria local. As regras que regem este mecanismo estipulam que:
- Temporariedade: A proteção inicial é de quatro anos, podendo ser prorrogada por até oito anos.
- Universalidade: As restrições devem se aplicar a produtos de todas as origens, sem discriminação, salvo raras exceções.
- Contrapartida: O país que impõe a salvaguarda deve, em teoria, compensar os parceiros comerciais; caso contrário, eles têm o direito de retaliar.
Impactos da China nas Exportações Brasileiras
O impacto das Medidas de Salvaguarda foi sentido com força quando a China decidiu proteger seu mercado pecuário. No final do ano passado, o governo chinês notificou a OMC sobre a necessidade de restringir a importação de carne bovina, argumentando que o aumento do fluxo deste produto estava desestabilizando seu mercado interno.
Entre 2019 e 2023, a importação de carne bovina pela China cresceu de 166 mil para 274 mil toneladas, segundo dados oficiais. Esse aumento fez com que o preço da carne local caísse, afetando negativamente os pecuaristas chineses.
Para o Brasil, a resposta foi imediata e significativa. O governo chinês estabeleceu um limite de 1,1 milhão de toneladas para a carne importada sem sobretaxa. A partir desse volume, uma sobretaxa de 55% seria aplicada, sendo que esse teto está 35% abaixo do que o Brasil já exportava, obrigando os produtores a reduzirem drasticamente os embarques.
A Situação na União Europeia e o Mercosul
Na Europa, o uso das Medidas de Salvaguarda envolve considerações políticas e diplomáticas. Apesar da assinatura do acordo Mercosul-UE em janeiro, o Parlamento Europeu decidiu implementar mecanismos de proteção mais rigorosos para acalmar seus agricultores locais.
Agora, se as importações de produtos sensíveis, como carne de frango ou bovina do Mercosul, aumentarem em 5% na média de três anos, uma investigação será iniciada pela Comissão Europeia. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) vê essa situação com preocupação, argumentando que as novas regras podem resultar em perdas bilionárias, estimando que o prejuízo na carne bovina pode chegar a 105 milhões de euros — um quarto de tudo que o Brasil vende para o bloco em 2024.
O Histórico das Salvaguardas no Brasil
Embora o Brasil hoje enfrente desafios devido a essas barreiras, o país também já recorreu a Medidas de Salvaguarda para proteger seus interesses em momentos pontuais. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam que esse recurso foi utilizado de maneira limitada desde a fundação da OMC, com casos focados na indústria de brinquedos na década de 90 e na cultura do coco nos anos 2000.
Em suma, as Medidas de Salvaguarda estão se mostrando um mecanismo complexo, com implicações significativas para o agronegócio brasileiro. A situação exige atenção dos produtores e formuladores de políticas, visto que as decisões tomadas em resposta a essas tensões comerciais podem alterar o futuro das exportações do Brasil.
