Impactos da Geopolítica no Agronegócio Brasileiro
Brasília – A recente operação dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na prisão do presidente Nicolás Maduro, levantou preocupações entre especialistas do agronegócio em relação aos efeitos indiretos que crises geopolíticas podem ter nas cadeias de produção e comércio globais. Embora os impactos diretos entre os dois países sejam limitados, há um consenso de que o setor agropecuário brasileiro poderá enfrentar mudanças nos custos operacionais, na volatilidade dos preços e nas exigências regulatórias.
De acordo com André Aidar, sócio e responsável pela área de Direito do Agronegócio no escritório Lara Martins Advogados, tanto a reconfiguração das relações entre os Estados Unidos e a Venezuela quanto as alterações nos fluxos de energia e commodities podem trazer reflexos significativos para o agronegócio brasileiro. “Mudanças nos preços internacionais e nos custos logísticos afetam diretamente a competitividade do setor. Apesar de tensões prolongadas poderem consolidar o Brasil como um fornecedor confiável de alimentos, também ampliam a vulnerabilidade em relação à volatilidade cambial e aos custos de insumos como frete, combustíveis e fertilizantes”, observa.
Gestão de Riscos e Compliance em Tempos de Instabilidade
O especialista afirma que, nesse cenário, uma gestão de riscos eficaz se torna essencial, com ênfase na diversificação dos mercados, revisão de contratos e monitoramento constante das sanções e exigências comerciais que podem mudar rapidamente diante da instabilidade internacional.
Complementando essa análise, Adhemar Michelin Filho, sócio da Michelin Sociedade de Advogados e especialista em Direito Empresarial e Ambiental, aponta que os impactos mais notáveis para o agronegócio ocorrerão principalmente nas áreas de energia e logística. “Eventos geopolíticos frequentemente aumentam a volatilidade do petróleo, o que, por sua vez, eleva os preços do diesel e dos fretes no Brasil, afetando cadeias produtivas como a de proteína animal, onde os custos de transporte e distribuição são críticos”, explica.
Aumento nas Exigências de Compliance
Michelin também destaca um aumento nas exigências de compliance e rastreabilidade nas cadeias internacionais, que podem impactar diretamente empresas que, a princípio, não mantêm relações comerciais com a Venezuela. “Mesmo negócios que não transacionam diretamente podem ser afetados por um rigor maior nas práticas de due diligence, na verificação de contrapartes e nas exigências impostas por bancos e seguradoras. Isso pode afetar prazos, contratos e questões de liquidez”, afirma.
Para os profissionais envolvidos, torna-se cada vez mais necessário abordar os riscos geopolíticos como uma variável fundamental na gestão do agronegócio. A combinação de uma gestão de custos eficiente, a elaboração de contratos mais resistentes, um planejamento logístico eficaz e o fortalecimento das práticas de compliance são estratégias essenciais para garantir a saúde financeira do setor e a competitividade em um ambiente global repleto de incertezas.
