Análise do Fenômeno da Perseguição Política
No início de 2026, o escritor Ruy Castro deixou claro seu desconforto em sua coluna na Folha de S.Paulo, revelando o clima espiritual perturbador que permeia o Brasil. O país, que parece estar sob um feitiço, se vê diante de uma situação única: Jair Bolsonaro está politicamente derrotado, debilitado e enfrenta problemas de saúde, mas o ódio contra ele permanece intenso. Este sentimento de aversão não traz compaixão, nem curiosidade sobre a fragilidade do ex-presidente. Em vez disso, há uma exigência para que a vítima continue a ser vista como tal. Este ódio, que persiste mesmo após derrotas e neutralizações, indica que o conflito no Brasil não é apenas político, mas remete a um ritual sacrificial de longa data.
Ao aprofundar essa análise, é necessário recorrer às ideias do filósofo René Girard. Em momentos de grande tensão social, como conflitos e polarização, as sociedades tendem a buscar uma reconciliação através da violência direcionada a uma vítima comum, vista como responsável por toda a culpa coletiva. Girard argumenta que, após períodos de mal-estar, a sociedade se une em torno de um bode expiatório, cuja inocência é ignorada. Essa dinâmica gera uma violência que se torna contagiosa e ritualizada, e a crença na culpa da vítima se torna fundamental para o equilíbrio psicológico do grupo.
Paralelos entre Apolônio de Tiana e a Perseguição Contemporânea
O trabalho de Girard permite comparações intrigantes entre figuras históricas e os comportamentos sociais de hoje. Ele traça um paralelo entre Jesus de Nazaré e Apolônio de Tiana, um místico pagão do século II. Ambos atuaram em contextos de crise, lidando com multidões à beira da violência, mas suas abordagens são opostas. Enquanto o cristianismo revela e desarma o mecanismo do bode expiatório, o paganismo o sacraliza e o executa.
Um exemplo icônico disso é a narrativa de Apolônio em Éfeso, onde uma epidemia de peste leva a população a buscar ajuda do taumaturgo. Ele convoca os cidadãos para um anfiteatro e, diante de um mendigo, sugere que as pessoas atirem pedras nele. A hesitação inicial da multidão se dissolve à medida que a violência se torna contagiosa, culminando em um linchamento frenético. Girard o descreve como um ‘horrível milagre’, onde a verdadeira cura não é a erradicação da peste, mas sim a ativação do mecanismo sacrificial.
O Papel de Alexandre de Moraes
Atualmente, Alexandre de Moraes é visto como o Apolônio de Tiana do Estado Democrático de Direito. Ele é considerado o curandeiro togado que deve salvar a sociedade da ‘ameaça antidemocrática’, representada por Bolsonaro. Esse último é rotulado como o demônio responsável por todos os males, como polarização e instabilidade nas instituições. O foco não está na veracidade das acusações, mas na eficácia simbólica da vítima. No início, havia certa hesitação quanto à legalidade de suas ações, mas o passar do tempo e a dinâmica de acusação alimentaram um clima de histeria.
A responsabilidade moral pelo uso da violência institucional se dissolve em um consenso que condena a vítima. A persistência do ódio se revela ainda mais evidente quando observamos que, mesmo após a derrota e a doença, o bode expiatório precisa continuar a cair. A compaixão se torna um risco, pois poderia quebrar o feitiço coletivo de sanção.
Uma Luta Cultural e Espiritual em Curso
O que está em jogo no Brasil vai além de uma simples disputa política ou jurídica. Trata-se de uma batalha cultural e espiritual que reflete modelos de justiça diferentes. De um lado, há a justiça que busca libertar-se do ciclo de violência, propondo a responsabilidade do acusador. De outro, existe a justiça sacrificial, que busca restaurar a ordem por meio da eliminação de um culpado. Moraes se posiciona claramente no segundo modelo.
Em uma entrevista à revista New Yorker, Moraes, ao ser questionado sobre suas referências espirituais, mencionou entidades afro-brasileiras como Xangô e Exu, ligadas à lei e à ordem, mas que também evocam a violência. Seu gesto durante a entrevista, ao conduzir a repórter até a porta, sugere que ele não se vê como juiz, mas como um guerreiro, reforçando a ideia de que a sua visão de justiça é mais sobre eliminar o ‘demônio’ do que sobre promover a verdadeira justiça.
Infelizmente, como já apontado por Girard, o sacrifício nunca resolve os conflitos de forma definitiva. A paz obtida por meio da eliminação do bode expiatório é temporária, e logo novas crises e novas vítimas emergirão. O desafio do Brasil reside em reconhecer esse mecanismo e escolher um caminho que evite o retorno a rituais sacrificiales em nome de uma salvação coletiva.
